Cultura

A CADEIRA E O ALGORITMO CAP 25: A GERAÇÃO PÓS GUERRA QUE CHEGA AOS 77

Essa geração chamada de "baby boomers" está ativa e com saúde participando da vida social e política do país
Tasso Franco , Salvador | 04/04/2022 às 08:02
TF no pilates no mês dos 77 anos de idade
Foto: BJÁ

Tenho uma bag monsieur Tapioca que carrego nas costas livros, água, barras de cereais, caneta, caderneta de anotações (ainda uso), pão, bananas e o que mais cabe a depender do peso e de quantos quilômetros vou caminhar. Durante a noite, me situo no tempo, choveu forte em Salvador com raios e trovões a espocarem no céu do mar aberto de Ondina, mas, o dia seguinte amanheceu limpo, sol iluminando a Barra - onde moro - e decidi carregar a bag para uma caminhada.

 

  Já havia colocado 6 exemplares do meu livro "Catarina Paraguaçu, a Mãe do Brasil" e mais 3 exemplares do "Sua Eminência o cardeal - Panegírico de Dom Lucas Moreira Neves", uma banana da terra, uma barra de cereal YJoe, uma garrafa d'água de 300 ml, um lenço de cambraia (ainda uso), quando a senhora Bião de Jesus, minha distinta esposa, cutucou-me com o polegar nas minhas costas perguntando onde iria. - Ao Pelourinho, respondi secamente completamento a arrumação da bag. - Não me tragas cocadas e acarajés - advertiu-me e perguntou se gostaria de uma carona ou usaria o Uber. - Não, vou a pé, no meu ritmo. - Benza-te Deus, acalentou-me. 

 

  Pigarear - diz ela que é uma das minhas muitas manias - e acomodei a bag nas costas, o bastão de andarilho na mão direita, ajustei o chapéu com abas protetoras para o gorgominho e disse: - No retorno, no Campo Grande, lhe ligo para uma boleia.  

 

  Parti para o meu destino final que era levar os livros para o Espaço Cultural da Cantina da Lua, no Terreiro de Jesus, e para a Alamoju livraria de mesa-de-rua do Maciel de Baixo. 

 

  De minha casa até o Porto da Barra são 3 km, que venço numa hora. Do Porto ao largo da Vitória, praça Rodrigues Lima, mais 1km, onde paro para descansar um pouco, beber água e comer a barra de cereal. Daí até o Campo Grande, ao lado da antiga residência do arcebispo, mais 1 km; e seguindo adiante até a praça Castro Alves, mais 2,5 km; e para completar o percurso até o Maciel mais 1k. Total: 8,5 km. De retorno até o Campo Grande mais 3k, perfazendo 11,5 km.

 

   Ora, direis o nobre leitor que é moleza. No Caminho de Santiago partindo-se de Saint Jean Pied de Port, na França, até Compostela, na Espanha, são 800 km e há 33 paradas neste percurso, cada uma delas distante uma da outra entre 22 e 29km, e jovens vencem todo o caminho em 33 dias. Os mais fortes, em 30 dias. Portanto, o meu percurso entre o Morro do Gato (Barra) e o Maciel de Baixo (Pelourinho), 11.5 km, com uma bag de 6k nas costas não tem dificuldade.

 

   Sim, sem dúvida, para um jovem nada demais. Mas, leve em consideração que o andarilho que escreve essas linhas tem 77 anos de idade, já passou por 4 cirurgias, tem 'stents' no coração, aprecia a boa mesa e o copo, e não é mais o atleta dos anos 1960 da Olimpíada Baiana.

 

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  Destaco essa minha performance - que também vem sendo feita por milhares de vovôs e vovós no Brasil, diariamente - porque integro um grupo enorme de pessoas na faixa entre 75 a 85 anos de idade que leva uma vida normal, trabalha, namora, bebe uns uisquinhos, usa bike, monta cavalo, frequenta academia, veleja, joga peteca, come de tudo (moderadamente) e não se entrega a pijama e a cadeira de balanço em casa. 

 

   Mas, afinal, que grupo é esse que tem chamado a atenção de especialistas e do mercado de consumo? 

 

   Na divisão clássica, as faixas etárias são 3: jovens (até 19 anos), adultos - 20 a 59 anos; idosos - indivíduos de 60 anos em diante. Há, uma série de subdivisões na prática da medicina e da psicologia como crianças (até 10 anos), pré-adolescentes (11 a 15 anos), adolescentes (16 a 19 anos), adultos (a partir de 21, maior idade), trintões, maduros (40 a 50), idosos (melhor idade, a partir de 65 anos) e velhos (depois de 77 anos). No Brasil, a expectativa de vida para as mulheres é de 80 anos e para homens 73 anos. 

 

   A geração dos nascidos entre 1940/1960 é chamada de "Baby Boomers" e a idade avançada só começa a partir dos 77, segundo novo estudo do Marist Institute for Public Opinion realizado para a Home Instead Senior Care. Mas, isso depende de cada país. No Japão, a expectativa de vida para os homens é de 84 anos e 88 para as mulheres. E, hoje, dados do OCED Better Life Idex, há milhares de japoneses tenho vida relativamente normal na faixa entre 90 e 110 anos.

 

   Logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, os países Aliados – como Estados Unidos, França e Inglaterra, por exemplo – viveram uma verdadeira explosão no crescimento demográfico local. Daí, portanto, surge o nome que significa literalmente explosão de bebês (baby boomers).

 

   Os pais dos "Baby Boomer" viviam diretamente impactado pelos efeitos da Segunda Guerra. Sendo assim, grande parte das crianças dessa nova geração foi criada em ambientes de muita rigidez e disciplina, o que levou ao desenvolvimento de adultos focados e obstinados. 

 

   O estudo intitulado "Generation to Generation: Gauging the Golden Years" (Geração a geração: medindo os anos de ouro) pesquisou a opinião de 1.235 americanos sobre envelhecimento e descobriu que no geral homens consideram velho alguém com 70 anos, enquanto as mulheres, alguém com 76 anos.

 

  Um "baby boomer", portanto, tem idades entre 62/82 anos e tornou-se uma parte significativa da população mundial. Algumas dessas pessoas participaram de movimentos libertadores da mente (meditações e outros) e mudanças nos estilos de vida - "hippie", "punks",  naturalistas, praianos e aqueles que contratam "personal stylist" e personais para a prática de exercícios físicos. 

 

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   Em artigo recente, a Sandra Pujol, autora que se dedica a temas relacionados ao envelhecimento, destaca a aparição dessa nova faixa social que não existia antes: "Pessoas que hoje têm entre sessenta e oitenta anos. A esse grupo, pertence uma geração que expulsou da terminologia a palavra envelhecer, porque simplesmente não tem em seus planos atuais a possibilidade de fazê-lo".

 

  É uma verdadeira novidade demográfica, semelhante ao surgimento da adolescência; na época, que também era uma nova faixa social, que surgiu em meados do século XX para dar identidade a uma massa de crianças desabrochando, em corpos adultos, que não sabiam, até então, para onde ir ou como se vestir. 

 

  Este novo grupo humano, que hoje tem cerca de sessenta, setenta ou oitenta anos, levou uma vida razoavelmente satisfatória. São homens e mulheres independentes que trabalharam durante muito tempo e conseguiram mudar o significado sombrio que tanta literatura latino-americana deu por décadas ao conceito de trabalho.

 

  Longe dos tristes escritórios, muitos deles procuraram e encontraram, há muito tempo, a atividade que mais gostavam e na qual ganham a vida. Supostamente é por isso que eles se sentem plenos; alguns nem sonham em se aposentar. Aqueles que já se aposentaram desfrutam plenamente de seus dias, sem medo do ócio ou solidão, crescem internamente. Eles desfrutam do tempo livre, porque depois de anos de trabalho, criação dos filhos, carências, esforços e eventos fortuitos, vale bem a pena contemplar o mar, a serra e o céu. 

 

  Antes, os que tinham essa idade, eram velhos e hoje não são mais... hoje estão física e intelectualmente plenos, lembram-se da sua juventude, mas sem nostalgia, porque a juventude também é cheia de quedas e nostalgias e eles bem sabem disso, conclui a Pujol. 

 

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  Em 2019, a MetLife conceituou que vida longa e a qualidade de vida andam juntas.  

 

  Os japoneses são notoriamente conhecidos pela longevidade. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, em 2018, a expectativa média de vida no Japão chegou aos 84.2 anos de idade – homens em média com 81.1 anos e mulheres chegando aos 87.1 anos. O Japão conseguiu um feito mundial: o número de japoneses que chegaram ou ultrapassaram os 90 anos de idade bateu a marca impressionante de 2 milhões de pessoas.

 

  A dieta japonesa é conhecida por ser magra e balanceada. Consiste basicamente em: peixes, frutos do mar, grãos integrais, vegetais e tofu. A comida ocidental ultra processada, comprovadamente responsável por uma série de doenças é praticamente inexistente nos pratos dos nipônicos. 

 

   O japonês tem por hábito ser criado em um ambiente que valoriza a vida a céu aberto. Por exemplo, em 2012, pesquisas mostraram que 98% das crianças japonesas já possuíam o hábito de ir à escola de bicicleta ou a pé, mesmo em Tóquio.

 

  Esse tempo ao ar livre traz uma série de benefícios, como a absorção da Vitamina D, cuja deficiência pode acarretar uma série de doenças como câncer, doenças autoimunes, depressão e artrite. Além disso, tempo gasto aproveitando os benefícios da natureza melhora as funções cognitivas e criativas em 20% e 50%, respectivamente, apontam estudos.

 

  O Sistema de Saúde no Japão é considerado um dos melhores do mundo. Combina conhecimento e equipamentos médicos avançados com acessibilidade a todos, seja de forma pública ou num modelo privado híbrido em que o governo arca com pelo menos 70% dos custos dos procedimentos, e consegue dar conta de sua população idosa de forma eficaz. 

 

  Acesso a um bom sistema de saúde e dieta equilibrada a base de peixes certamente ajudam a viver mais e com mais saúde. Entretanto, alguns estudos mostram que os japoneses têm maior predisposição a dois genes específicos, que impactam nessa longevidade. O primeiro é o DNA 5178, que protege o indivíduo de doenças adultas como: infarto do miocárdio, doenças vasculares cerebrais e diabetes tipo 2. Já o genótipo ND2-237Met pode conferir resistência a doenças cardiovasculares e aterogênicas. 

 

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   Publicação lançada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que, em 40 anos, a população idosa vai triplicar no Brasil, passando de 19,6 milhões (10% do total), em 2010, para 66,5 milhões de pessoas em 2050 (29,3%). O aumento do número de idosos implicará mudanças profundas em políticas públicas de saúde, assistência social e previdência, entre outras.

 

  As estimativas são de que a virada no perfil da população acontecerá em 2030, quando o número absoluto e o porcentual de brasileiros com 60 anos ou mais de idade vão ultrapassar o de crianças de até 14 anos. Daqui a 8 anos, os idosos chegarão a 41,5 milhões (18% da população) e as crianças serão 39,2 milhões, ou 17,6%, segundo estimativas do IBGE.

 

  Tudo isso vai mexer na formação urgente de recursos humanos para o atendimento geriátrico, além de providências com relação à previdência social, que deverá se adequar a essa nova configuração demográfica, além de melhorias urgentes nas redes de atendimento hospitalar, ajustando-as a esta nova configuração populacional que tende a um crescimento cada vez mais intenso; diz o texto.

 

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  Veja o seguinte: até a década de 1980, Salvador não tinha clínicas especializadas em dores. Hoje, são dezenas delas juntamente com as de fisioterapia, pilates e RPG porque os velhos sentem dores com o enfraquecimento dos músculos. Mas, isso não significa que estejam doentes observando-se a palavra clássica para doenças. São tratáveis e até curtem essas clinicas e academias.

 

  Os médicos afirmaram que fazer exercícios no mínimo três vezes por semana, seguir uma dieta balanceada e ter uma vida social agitada - desde o convívio alegre com a família até fazer trabalhos voluntários, encontrar os amigos e frequentar eventos com pessoas conhecidas - são os segredos para viver mais e com qualidade. Quanto mais cedo essa soma estiver presente, mais a pessoa terá velhice melhor.

 

 O mais a gente já sabe: parar de fumar (quem fuma), beber e comer moderadamente. O ditado popular diz que 'véi' morre pela boca ou de queda.

 

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  E onde entra o tema do nosso livro "A Cadeira e o Algoritmo" - a harmonia entre as velhas tecnologias com as novas? 

 

  Ora, essa é uma questão essencial, o fulcro, pois, as pessoas que hoje estão nas faixas de idades entre 77 e 85 anos foram educadas usando as tecnologias das suas épocas - o livro, o quadro negro, o giz, o caderno de caligrafia, as enciclopédias, a infância e juventude sem uso de TV e computadores, etc, etc - hoje consideradas velhas e obsoletas; e agora enfrentam um mundo plugado na Web, robotizado, cibernético, etc, etc - e têm que se adaptarem a ele.

 

  Evidente que uma pessoa com 80 anos de idade não vai disputar o mercado de trabalho com um jovem, nem jogar futebol; mas, precisa estar atualizado com o uso do iPhone, com os medidores de pressão eletrônicos, com os spas que existem no seu país e podem (e devem) mesclar as duas tecnologias.

 

  Observe, também, que novas profissões vão surgir e outras que eram pouco valorizadas - nutrição, psicologia, geriatria, fisioterapia, cuidadoras, profissionais de educação física e mental, etc - vão ficar em alta. 

 

  Tenho um compadre que é produtor rural e engenheiro de profissão. Usa as novas tecnologias da engenharia na parte de irrigação de área de sua fazenda e ao mesmo tempo monta cavalo para percorrer a roça; tem trator de última geração e enxadas e cavadores.  

 

  Penso que a sabedoria está nesse contexto. Trabalho produzindo livros para a Amazon e o Wattpad via web, - em aplicativos eletrônicos - para leituras em telas de computadores; mas cuido de fazê-los e lê-los no papel. Meu veiculo automotor tem gps e meu bandolim data de 1984. 

 

  É esse convívio entre o velho e o novo que me faz feliz. Posso contemplar o céu e o mar, andar pelas ruas de sandálias havaianas, curtir o comércio de rua da Av Sete e gravar momentos no meu iPhone ou falar diretamente com meu filho que mora na Espanha sentado na praça da Piedade, onde 4 mártires da Revolução dos Alfaiates foram enforcados. 

 

   E, se quiser, ali mesmo, sentado no banco da praça acessar o Google e saber quais os nomes dos mártires e as ações que praticaram no final do século XVIII, em Salvador. 

 

  Nós, velhinhos, estamos, pois, plugados, ligados, conectados, nas ruas, nos bares, nas lotéricas, nas livrarias, nas lojas dos Chinas, andando normalmente e consumindo produtos de forma seletiva. O mercado, portanto, que se adapte às nossas exigências. 

 

  Agora, com licença que vou comer um acarajé na baiana mais querida das Mercês e tomar uma gelada. - Vai beber o que vovô, pergunta-me a atendente. - Uma Heineken.