Walmir Rosário é radialista, jornalista e advogado.
Walmir Rosário , Salvador |
29/08/2025 às 11:39
Baby Beef Itabuna
Foto: DIV
Eu sempre utilizo um ditado como modo de conduta: “Não vou a tudo em que sou convidado, muito menos onde sequer fui lembrado”. Por todo esse tempo esse costume não me causou qualquer arrependimento ou dissabor. Sei que não sou um bom conselheiro, pois me faltam predicados, embora não me furte a dar algumas dicas sobre os riscos que podem acometer aos penetras.
Outro comportamento que faz bem a qualquer desprevenido é não aparecer em locais nos quais seus bolsos são desqualificados, monetariamente. Em tempos passados, o velho talão de cheque poderia quebrar um galho no acerto de contas, embora nos dias seguintes fosse ele convidado a comparecer ao banco com os recursos para o competente depósito e cobrir o cheque voador. Hoje não mais, o cartão de crédito é rejeitado na hora e o Pix nem por sonho.
Durante toda a minha vida convivi com amigos de todos os comportamentos. Uns mais afoitos e de boa lábia, cujo poder de convencimento quebrava o mau humor do dono do estabelecimento e o permitia assinar um vale de quitação duvidosa. Um deles, após muitos goles de cachaça e cerveja, não contou conversa e puxou do bolso um talão de cheque e o preencheu com o valor da conta da mesa. Só que era a folha da requisição do talão de cheques, conforme ficou sabendo na segunda-feira, com a visita do dono do bar.
Desses casos coleciono algumas dúzias, mas um deles me chamou a atenção, e dia desses, ainda me fez lembrá-lo o colega causídico Antônio Apóstolo. Éramos estudantes de Direito, nos velhos tempos da Fespi,
depois Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc). Estávamos no saudoso Baby Beef, disparado o melhor restaurante que Itabuna “já teve”.
Numa mesa, dois de nossos professores da faculdade, um deles recém-conhecido de dois colegas do curso. Ambos de uma pequena cidade do Recôncavo, e entraram no Baby Beef apenas para conhecer o restaurante,
conceituado pelo serviço, comidas e bebidas. O certo é que ficaram embasbacados e começaram a circular entre as mesas, verificando as iguarias.
Ao se depararem com os ilustres professores, na maior inocência resolveram cumprimentá-los. Ao serem reconhecidos, os mestres responderam às saudações e um pequeno bate-papo foi estabelecido. Por
educação, acredito, foram convidados a sentar-se à mesa e os visitantes não fizeram cerimônia. O garçom logo providenciou duas taças e pratos para o couvert.
Durante um bom tempo da noite de sexta-feira o quarteto conversou sobre a qualidade do vinho Liebfraumilch (garrafa azul), da comida, e da qualidade dos restaurantes de Itabuna, da faculdade e do que mais lhes apeteciam. E num restaurante da categoria do Baby Beef os solícitos maitre e garçons atentos à mesa, a abasteciam com muita frequência. Comeram um Peixe à Belle Meunière, que consideraram comida dos deuses.
Um pouco depois da meia-noite, bem satisfeitos, os professores elogiam a bela noitada num restaurante de primeira linha e anunciam que iriam embora, pois naquele sábado teriam que ministrar aulas logo nos
primeiros horários. Pedem a conta e a conferem assim que chega. Num simples cálculo promovem a divisão equitativa, ou seja, fracionam o total entre os quatros participantes.
Os dois convidados começaram a gaguejar e suar frio, pedindo desculpas por se encontrarem desprevenidos de recursos, em dinheiro ou outro meio de pagamento, pois tinham ido ao Baby Beef apenas para conhecer o conceituado ambiente. Os professores não contaram conversa, pagaram as suas partes e avisaram aos dois alunos que resolvessem o problema com o maitre e partiram.
Atônitos, os dois se dirigiram ao balcão e quase em prantos relataram que não eram de Itabuna, embora gente de bem, estudantes de direito na Fespi, filhos de boas famílias e o único recurso para solucionar o problema seria fazer uma ligação telefônica para a família de um deles. Era a época do telefone fixo, e àquela hora ligaram para o pai, relatando o ocorrido, sendo liberados após a garantia de uma ordem de pagamento urgente na próxima segunda-feira.
No dia seguinte, na primeira aula, às 7h30min, o professor de Direito Civil, o então juiz do Trabalho Érito Machado (depois desembargador presidente do TRT-5), escreveu no quadro os temas da aula, virou-se para os alunos e disse: “Aqui tem uns caipiras que chegaram ao Baby Beef, em Itabuna, sem dinheiro para pagar a conta, como se estivessem na pensão de sua cidadezinha”.
Em seguida, deu início à aula, criando uma apreensão entre os alunos, ávidos em saber quais seriam os personagens descritos pelo mestre. Depois desta lição, nunca mais saíram desprevenidos, financeiramente,
para uma noitada, mesmo de reconhecimento.
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