AS TRÊS GERAÇÕES DOS PAES FRANCO
Este é o último capítulo do livro e vamos comentar sobre as três gerações dos Paes Franco como viviam e se comportavam, as semelhanças e diferenças entre elas, o que vale também para as demais famílias que habitaram o território da Serrinha no tempo dos meus avós, entre 1880-1960.
Há uma relação intrínseca entre todos porque os modelos administrativos, políticos, econômicos e sociais do Império (1880-1889) e da República Velha (1889-1930) e da República era Vargas e redemocratização (1930-1960) valeram para todos.
Ou seja, ninguém viveu à margem desse sistema e no período do Império quando meus avós nasceram e ainda eram menores existiam dois “modus-operandi” de comportamentos humanos que eram configurados na politica entre os partidos Conservador e Liberal, já existiam os Republicanos, mas, quando foi instalada a República (1889) o modelo continuou o mesmo com republicanos conservadores e liberais.
A rigor, nesse período que vai de 1880-1930, o Brasil se sustentava em sua maioria uma sociedade conservadora, patriarcal, machista, em que o comando de todas as ações políticas, administrativas, econômicas e sociais eram do homem, a mulher tendo um papel secundário na família voltada para a educação dos filhos, e na submissão e obediência aos maridos.
Serrinha, pois, sendo uma localidade do interior Nordeste da Bahia, participava desse modelo, com pouquíssimos liberais e a grande maioria conservadora. Isto é, aqueles que comandavam o poder não desejavam mudar e essas mudanças só vieram com o tempo. A mulher, por exemplo, não tinha direito a voto e isso só veio acontecer em 1932, na primeira fase do governo Getúlio Vargas.
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Os Alves, Franco, Freitas eram originários do Irará e até 1876 Serrinha era território distrital. Quando esse grupo familiar chegou ao Lamarão na trilha do trem, a partir de 1880, Serrinha estava emancipada, era a sede e o Lamarão distrito. Se estabeleceram por ai e meu avô Jovino se aventurou a explorar a área do Matão, a Guariba, a Boa Vista, já no território da Serrinha propriamente dita e se casa com uma Coutinho, Roza, originária da sede.
Meu avô materno João era descendente da sétima geração de Bernardo da Silva, fundador do povoado da Serrinha a partir de 1723, portanto, nascido na sede, e se casou com Leonor, nascida na Tiririca, zona rural.
As famílias se formataram dessa maneira: todos da mesma localidade ou adjacências. Isso era comum a todas às famílias porque se viajava pouco (até a chegada do trem) e havia muitos casamentos e uniões entre parentes.
Meus avós, portanto, integraram a geração Império-República Velha, conservadora, patriarcal, machista que, em Serrinha, vai entre 1880-1930, muito assemelhado em todo Brasil nas cidades menores, distritos e povoados.
Todo o poder era concentrado no homem. O Conselho Municipal era constituído por homens, o juiz de Paz era homem, o juiz de Direito, idem; o delegado, o padre, o intendente, o médico, o dentista, o alfaiate, o barbeiro, o comerciante, etc.
A mulher cuidava da família, do marido e dos filhos, e poucas trabalhavam fora de casa. As exceções eram as professoras do ensino primário. As demais, em sua maioria, mesmo praticando atividades que não consideradas do lar, utilizavam suas próprias casas, como as costureiras, doceiras, manicures, rezadeiras e outras.
Não existiam mulheres comerciantes, empreendedoras, médicas, dentistas, advogadas, etc, Uma outra exceção para as mulheres se relacionava com as atividades culturais: a cidade tinha uma lira constituída por mulheres que tocavam bandolins e mulheres que comandavam grupos teatrais, de dança, de folguedos e no Carnaval.
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A segunda geração vai entre 1910 (nascimento de meu pai) e 1940 (nascimento de meu irmão Bráulio) e a sociedade ainda era machista, patriarcal, conservadora, porém, aconteceram muitas mudanças de comportamento das pessoas e da sociedade, algo mais aberto, mais participativo.
E aconteceram giros na agenda mundial com duas grandes guerras na Europa que vão modificar muita coisa, inclusive nos avanços tecnológicos.
Minha mãe (Zilda) nasceu em 1917 e integrava a família Paes Cardozo dando-se a união Paes Franco. Ou seja, ainda era uma época em que os casamentos se davam entre pessoas da mesma localidade, parentes e amigos de infância, e isso, vale para todos os serrinhenses, salvo algumas exceções que chegaram na trilha do trem, sergipanos e famílias do sertão norte da Bahia, e outras no caminho da estrada de rodagem aberta em 1932 (Transnordestina até Fortaleza).
Os pais de meus pais só foram ser avôs e avós em 1940 com o nascimento do meu irmão Bráulio, em 20 de outubro. É a partir desse momento que Jovino Roza (os paternos) e João e Leonor (os maternos) passam a ser vovôs e vovós, a essa altura na faixa entre 50 e 60 anos de idade e eram considerados velhos. Ninguém falava a expressão idosos.
Hoje, a classificação é a partir de 60 anos até 80 anos (idosos, terceira idade); A quarta idade, ou velhice, começa aos 80 anos e termina aos 90 anos; a longevidade começa aos 90 e termina com a morte aos 100 anos ou um pouco mais.
Em Serrinha, na época em que meus avós e se tornaram avós eles eram chamados de velhos e se comportavam dessa maneira, a velhice clássica, saindo pouco de casa, passando os negócios para os filhos, se aposentando.
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A roda foi girando e Bráulio, filho, foi quem puxou a fila dos netos dos meus pais (Bráulio e Zilda) com o nascimento de Yuri, em 1962, a essa altura meu pai com 52 anos e minha mãe com 45 anos de idade. Observem que meus avós esperaram ente 50 e 60 anos para terem o primeiro neto; e meus pais, 23 anos, uma vez que se casaram em 1939.
Nesse contexto, meus pais foram avós numa idade em que não se chamava uma pessoa com 55/60 de velho (a), mas, de maduro, ou senhor ou senhora (dona), e ainda estavam em idade laboral. Meu pai só vai se aposentar nos anos 80 quando completou 70 anos de idade.
São gerações assemelhadas no conservadorismo, porém, com usos e costumes diferenciados. A geração de meu pai e demais serrinhenses dessa época vão usufruir do automóvel, da geladeira, dos eletrodomésticos de uma forma geral, do rádio, da TV, da vitrola, etc, equipamentos que meus avós conheceram, mas, não utilizaram. Meus avós não tiveram carros, nem TV, nem eletrodomésticos, nada disso, porque morreram na década de 1950.
Só a titulo de ilustração, meu pai morreu no ano de 1994, e a diversão dele no final da vida era assistir filmes em vídeo cassete que alugava nas lojas, uma inovação tecnologia que considerava fantástica. Ou seja, ia ao cinema sem sair de casa, tomando um cafezinho ou uma cerveja.
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Como vocês sabem que a roda da vida não para de girar mesmo diante da morte, uns vão partindo; outros vão chegando, chegamos nós dessa terceira geração, que começa com Bráulio Filho, em 1940 e se encerra em 1960), objeto desse livro. Mas, é claro, que entre 1960 a 2026, surgiram mais três gerações (1960 a 1980); (1981-2000); e de (2001 a 2026).
Entrei nessa história em 1945, depois da minha irmã Celeste (1942) e ainda veio Laiz (1950). Essa geração deixa de ser conservadora e passa a ser mais livre, mais liberal, influenciada pelos movimentos da França (1968), pela reforma da igreja com João XXIII, pelo rock, a jovem guarda, os The Beatles, um monte de coisas que teve uma forte influência da televisão. A TV abriu uma janela imensa nos costumes brasileiros porque eram ditadas pelos centros mais desenvolvidos Rio e SP e absorvidos pela população de uma forma geral.
Foi assim, nos anos 1960, já morando em Salvador, que apareci lá em casa, na Serrinha, cabeludo (esse cara é cabeludo), camisa colorida de manga no cotovelo, botinha, e meus país me olharam como se fosse um alienígena, um ET. Um impacto que só não foi maior porque eles já tinham vistos esses cabeludos na TV.
Meus avós se vestiam à moda europeia, meus pais também e minha geração vai adotar algo mais tropicalista, mais brasileiro, inclusive nas cores, no verde das florestas, no azul do mar, no amarelo, etc, enfim, algum mais pátrio.
Então, meus caros leitores e leitoras, eu poderia falar muito mais sobre gerações e até vou fazer um epilogo neste livro para a complementação de dados mais atuais, o que se passa no mundo, hoje, e o que virá ou se visualiza que virá, pelo menos até 2030. Mais do que isso é impossível se fazer quaisquer previsões diante das mudanças que estão sendo processadas com as novas tecnologias.
Veja que no tempo dos meus avós as mudanças demoravam anos, décadas, e da Serrinha imperial e da República Velha em que as mulheres estavam limitadas a serem donas de casas e ou professoras; até que elas passassem a ser empreendedoras e exercerem outras profissões foram mais de 50 anos.
Lembro que as pioneiras foram as costureiras também chamadas de modistas, as donas de salões de beleza e algumas pessoas ricas que se formaram em cursos superiores na capital. Quando o Ginásio Estadual foi aberto em 1949/1950, a diretora era uma mulher Aidil Franco Lima; e também me recordo que uma das primeiras a comandar uma loja no comércio (farmácia) foi Lindaura Santana, esposa de Paulino Santana, que era o cabeça da farmácia, mas, por ser um cidadão dado a caridades (era também parteiro e fotógrafo) e adorava futebol e uma pinga, os negócios da farmácia foram caindo e creio, Lindaura, que era dona de casa, deve ter tido: “Vou cair dentro, assumir a farmácia, senão quebra”. E foi o que fez e salvou a farmácia. O importante a destacar (salvo melhor juízo) que era a única mulher na cidade que administrava uma loja comercial num comércio dominado por homens.
E também creio foi Mirtô, minha tia, que abriu a primeira loja no estilo boutique, em Serrinha.
Veja também o seguinte, do trem (1880) para o automóvel (1930) se passaram 50 anos e, creio, quem primeiro teve um carro na família foi tio Aderaldo, um jeep Wilys, nos anos 1950, quando era solteiro e um carro dava status. Já meu pai, quando comprou o seu Wilys, já era um modelo mais novo (início dos anos 1960) chamado de utilitário 4x4 e ele adquiriu com essa função de ser utilitário. Eu, aproveitei a boca e o usava nas minhas farras.
Por esses exemplos vocês podem ver como eram os comportamentos das gerações e os status da cada segmento da sociedade. Ter um Ford e Bigode (anos 1920) com capota de lona, importado, só os ricos tinham; ter um aero Wilys (anos 1960) quando foi lançado também só para os ricos.
Isso dava ‘status’ mas não alterava a sociedade que seguia seu caminho, pobres, remediados e ricos entrelaçados. Todos dependiam uns dos outros., A primeira mulher vereadora do município foi Didia Brasil (anos 1940) a primeira deputada Nanu Oliveira (anos 1960), mas, até os dias atuais uma mulher não conseguiu ser intendente e/ou prefeita de Serrinha e até a minha geração casadoira nos anos 1960/1970, os casamentos de davam com pessoas da comunidade.
Eu me casei com uma Ribeiro/Oliveira; minha irmã mais velha com um Queiroz, da Cabeça da Vaca; e os irmãos mais velho e mais jovem com integrantes da família distrital do Raso (Araci), os Moura e os Pinho.
Num corte, para melhor entendimento desse texto, meus avós eram velhos quando avós; meus pais eram maduros quando avós; e meu irmão (pioneiro em ser avô) era jovem.
Assim era a interpretação dada pela sociedade conservadora, patriarcal e machista. Isso vai ter uma mudança mais profunda a partir dos anos 1970, as famílias tendo menos filhos, mais preocupadas com saúde e educação, enfim, uma outra história, que não cabe contar aqui. (Fim)
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*** Epílogo – neste capítulo vamos mostrar o que se passa na atualidade e o que virá até 203º.