Waldeck Ornélas é especialista em planejamento urbano-regional. Autor de Cidades e Municípios: gestão e planejamento.
Waldeck Ornelas , Salvador |
09/03/2026 às 11:56
Memorial de Medicina
Foto: UFBA
Em pleno Carnaval, um apelo desesperado circulou nas redes sociais, protagonizado pelo Diretor da Faculdade de Medicina da UFBA, seguido por um abraço dos médicos ao prédio da antiga Faculdade de Medicina.
Trata-se da situação precária em que se encontra a edificação do antigo Colégio dos Jesuítas, fundado em 1550, pelo Pe. Manoel da Nóbrega, e que aí funcionou até 1759, quando os jesuítas foram expulsos do Império Português.
Aí estudaram o Pe. Antonio Vieira, o Frei Vicente do Salvador e o poeta Gregório de Matos, entre muitos outros vultos ilustres da nossa História e das Letras. Como se não bastasse haver sido uma das primeiras instituições de ensino estabelecidas no Brasil Colônia, sediou também a primeira faculdade de medicina do país (1808). Aí se formaram milhares de médicos, incluindo figuras de destaque como Manoel Vitorino, Afrânio Peixoto, Oscar Freire, Nina Rodrigues, Alfredo Brito, Juliano Moreira, Martagão Gesteira, Prado Valadares, Pirajá da Silva e Gonçalo Muniz, entre muitos outros. Será que isto, para os cidadãos de hoje, não tem nenhum valor?
Transferida a faculdade para o campus do Canela, a edificação ficou sem função definida, tendo sido aí estabelecido o Memorial da Medicina Brasileira, mas mantido o prédio subutilizado e malconservado pela Universidade, que detém sua propriedade e uso. Mais grave foi deixar seus imensos espaços sem um plano de ocupação, enquanto a instituição se defronta com a necessidade de novas edificações para absorver a demanda por salas e laboratórios.
Há edifícios, locais, fatos e acontecimentos que são emblemáticos e simbolizam os valores que uma nação ostenta. Entre nós, isto tem sido não apenas negligenciado, mas propositadamente abandonado, para permitir e promover uma releitura banal e ideológica da História e da vida social do país.
Do ponto de vista urbano, o Colégio dos Jesuítas, cujo prédio atual data de 1905, compõe o belíssimo cenário do Terreiro de Jesus, faz parte do conjunto da Catedral Basílica e integra o perímetro considerado pela Unesco, há quarenta anos, como Patrimônio da Humanidade, além de ser tombado pelo Iphan.
Aliás, já passamos do momento de entender que tombado pelo Iphan não deve ser sinônimo de condenado ao desabamento. É certo que o Iphan também precisa fazer a sua parte para mudar este conceito, modernizando as suas políticas. Nesse caso, sugere-se tomar como referência a experiência europeia.
A ministra Margareth Menezes tem papel importante a desempenhar na resolução desse problema, como se não bastasse ser baiana, mas por ser ministra da Cultura.
Além de termos o prédio restaurado, é preciso que a UFBA tenha compromisso claro e explícito com o uso digno e pleno da edificação, retornando para lá estudantes de graduação da área da Saúde, com o que também contribuirá para a vitalidade do Centro Histórico de Salvador. O entorno ainda se beneficiaria pela presença de residências estudantis.
Será que as autoridades vão esperar que se repita algo como o desabamento do forro da magnífica Igreja de São Francisco, que envolveu, inclusive, a perda de vida humana?
É inadmissível que na Bahia estas situações ainda venham se repetindo com imóveis de arquitetura monumental, depois do grande esforço – e exemplo – realizado, na primeira metade dos anos 1990, pelo governo do Estado, sob a liderança de Antônio Carlos Magalhães, quando promoveu a recuperação do Pelourinho, projeto que me coube, honrosamente, coordenar.
Salve-se o Colégio dos Jesuítas!