Produção inglesa e norte americana está indicada em 8 categorias ao Oscar e trata de uma passagem da vida de William Shakespeare
Seap Ocnarf , Salvador |
14/03/2026 às 11:44
A atriz irlandesa Jessie Buckley interpreta Agnes, esposa de Shakespeare
Foto: DIV
É muito difícil (e até arriscado) palpitar com alguma certeza qual filme levará estatuetas do Oscar nas diferentes categorias em disputa. Ao longo dos anos temos acompanhado (e visto) que, alguns filmes que entraram no rol dos apontados como preferenciais acabaram não levando tantas estatuetas como se esperavam.
Na temporada 2026, fala-se com muita paixão da possibilidade de "Agente Secreto" ganhar premiações. Isso, no entanto, parece-nos improvável. Porém, não podemos assegurar com certeza uma vez que em Hollywood são muitas as variáveis nas premiações.
Vi, ontem, o filme "Hamnet: A Vida Antes de Hamlet" (2025), dirigido pela chinesa radicada nos Estados Unidos, Chloé Zhao, um drama denso e sensível sobre luto, perda e a arte como cura. O "ser ou não ser" shakespereano focado em Agnes (interpretado pela atriz irlandesa Jessie Buckley), esposa de Shakespeare, filme com indicações em oito categorias.
Pelo que já assisti até agora creio que Jessie Buckley, com interpretação primorosa, beneficiada por cenas que um drama proporciona - partos dolorosos (exposição um pouco demorada), a morte, a relação conflituosa com o marido ausente - tem tudo para levar a estatueta de melhor atriz para sua estante.
Sua interpretação é arrebatadora e engrandece o filme que, diga-se, tem uma direção sensível, fotografia belíssima, cenários encantadores e atuações convincentes, retratando como o casal lida com a morte do filho Hamnet.
O filme, em síntese, narra passagem da vida do dramaturgo inglês William Shakespeare que viveu na Inglaterra na virada dos séculos XVI para XVII e a direção é politicamente correta na interpretação desses cenários o que leva os telespectadores a um período da vida em que a medicina ainda estava praticamente engatinhando como ciência, morria-se de peste com frequência (caso do menino Hamnet) e os métodos utilizados para combater uma doença desse gênero eram água morna, sal e outros unguentos.
E tudo isso é mostrado no filme pela Chloé Zhao e por um roteiro sensível (mas, às vezes, um pouco confuso) onde a interpretação dos atores leva a compreensão do valor que a vida tinha naquela época, do ser ou não ser, da existência humana, o que está muito presente na obra shakespereana.
No filme, o núcleo familiar de William Shakespeare (Paul Mescal) e da esposa, Agnes (Jessie Buckley) é fragmentado após a morte do filho gêmeo, Hamnet. Distante como marido o escritor Shakespeare, que no momento da morte se encontrava em Londres tentando angariar público para suas peças (mais comédias) encontra no drama um canal para reorganizar a dor, sentimento que, mais tarde, se transformará em Hamlet.
O drama familiar só aumenta com Agnes cobrando-o de que “você deveria estar aqui”, “eu fiz tudo o que podia” (quando Hamnet morreu) e com o passar do tempo uma mulher informa a Agnes que a nova peça do marido é comentada por toda a cidade, supostamente, Londres. E ela vai verificar a peça (ao vivo) e incrédula com o que vê (não sente que retrate a morte do filho) e no decorrer do espetáculo se convence disso. E fica na dúvida se perdoa o marido (ou não).
Alguns críticos renomados do cinema dizem que a atuação de Jessie Buckley é marcada pelo “excesso, através de gestos amplos, gritos estrondosos, olhares perdidos que oscilam entre ingenuidade e caricatura. Sua Agnes se aproxima mais de uma figura mística genérica, quase uma “bruxa da floresta”, do que de uma mulher atravessada por dor, afeto e sabedoria”.
Paul Mescal, no papel de William Shakespeare (que muita gente só vai entender no final da película) tem uma atuação com gestos contidos, um homem a beira do colapso emocional, porém, que vai compensando isso com a dramaturgia.
Com isso (a arte), em parte, consegue amenizar os conflitos familiares e a direção mostra com certa frequência quando viaja para Londres, a cavalo, e deixa a família no interior. A emoção (ou não emoção) que passa nos momentos em que deixa a mulher e filhos aponta a literatura como a válvula de escape e um idealismo maior do que o familiar.
A diretora chinesa conseguiu colocar tudo isso na tela explorando a magia, a bruxaria, o silêncio e o sofrimento, transformando a dor em arte e revelando como a peça Hamlet nasceu de uma tragédia familiar, ainda hoje interpretada nos teatros do Ocidente, com diferentes montagens. Seguem em aberto os debates do “Ser ou Não Ser”.