Cultura

ROSA DE LIMA COMENTA CRÔNICAS DE PETERSBURGO, DE FIÓDOR DOSTOIÉVSKI

Estamos aqui, comentando o período em que era “flâneur” – um sonhador, o andarilho de Petersburgo - cidade que só permitia andar do inicio ao fim da primavera devido ao intenso inverno.
Rosa de Lima , Salvador | 14/03/2026 às 09:39
Rosa de Lima comenta
Foto: BJÁ

   A obra de ficção de Fiódor Dostoiévski (1821-1881) é conhecida de boa parte dos brasileiros – ao menos daqueles que apreciam a literatura universal – porém, pouco se sabe de sua atuação como jornalista e cronista da vida russa. Escrevia com regularidades nas revistas literárias que fundou e no jornal “Noticias de São Petersburgo” na seção de crônicas. No século XIX, na Rússia houve uma efervescência cultural e a publicação de folhetins acabaram se tornando um gênero literário por lá, o folhetim.

   Lembram do “Pasquim”, no Brasil. Era isso, um “folhetim” jornalístico, poético, humorístico, critico e o que mais fosse. E Dostoiévski – por lembrança – iniciou sua trajetória literária num almanaque humorístico chamado “O Trocista” (1845), criado pelo irrequieto Nikolai Nebrássov que integrava o círculo literário de Vissarion Bielinsk. Foi Bielinsk que farejou o talento de Fiódor e o introduziu num circulo literário onde atuavam os grandes escritórios daquela época, primeira quadra do século XIX.

   O livro “Crônicas de Petersburgo” (EDITORA 34, tradução de Fátima Bianchi, reimpressão 2025, 95 páginas, SP, R$40,00 nos portais) traz além de um prefácio da Fátima Bianchi – bastante esclarecedor sobre essa fase da vida literária do escritor – seis crônicas todas datada do ano 1847 (o autor tinha apenas 26 anos de idade) e mais a apresentação do almanaque “O Trocista”. Ora, pois, nesse texto, comenta Bianchi, “Dostoiévski anuncia ainda que o narrador ‘o único flaneur nascido em solo petersburguense’ apresenta a cidade aos seus leitores”.

   Ficamos sabendo nós que, tal como Charles Baudelaire (1821-1867), o mais destacado “flaneur” da França e do Ocidente, Dostoiévski flanava com olho crítica pela glamurosa e efervescente São Petersburgo. Que ótimo. Também é dessa época que publica seu primeiro romance “Gente Pobre” (1846) na “Coletânea de Petersburgo” sendo aclamado como o nome mais destacado do movimento literário intitulado Escola Natural. Sua segunda obra, em livro, “O Duplo” não foi bem recebida pela crítica.

  Na Rússia, a crítica, isto é, informações e analises de obras feitas pelos grandes nomes da literatura eram de fundamental valor para que um escritor iniciante vendesse suas obras, fosse aceito pelos editores e fizesse sucesso. Depois da publicação de “Recordação da Casa dos Mortos” (1862) baseado na sua prisão e “Memórias de Subsolo” (1964) – considerada a obra de transição para inicio da fase dos chamados grandes romances, iniciado com “Crime e Castigo” (1866) torna-se um dos grandes e fecha esse ciclo com “Os Irmãos Karamazov” (1880) sua última obra e considerada a mais expressiva.

  Mas, estamos aqui, comentando o período em que era “flâneur” – um sonhador, o andarilho de Petersburgo - cidade que só permitia andar do inicio ao fim da primavera devido ao intenso inverno, período classificado como “época clássica do amor” a estação que muitos vão para suas casas de campo e deixam a cidade.

  E o que ele diz na crônica de 13 de abril de 1847: - Dizem que é primavera em Petersburgo. Mas, será mesmo. Ainda bem, é provável que seja. De fato, temos todos os indícios: metade da cidade está de gripe e a outra metade, ao menos, constipada () Os salões logo serão fechados e os saraus, suspensos; os dias se tornarão mais longos e já não bocejaremos graciosamente nos recintos abafados, ao lado de lareiras elegantes, ouvindo uma novela que hão de ler ou contar ali mesmo aos senhores, aproveitando-se de sua inocência () Com o fim do inverno ficamos privados de muita coisa; temos a intenção de não fazermos nada no verão. Estamos cansados. É hora de descansar. Não é à toa que dizem que Petersburgo é uma cidade tão europeia e tão cheia de afazeres () Então, deixem-na em paz, deixem-na descansar com suas datchas e seus bosques () Apenas em Moscou é que se descansa antes do trabalho; Petersburgo descansa depois do trabalho”.

  Eis o senso crítico do “flâneur” ao situar Petersburgo diferente de Moscou como uma cidade com características europeias, as diferenças de comportamento da população no inverno (época da temporada de concertos, saraus literários, etc) e a primavera (um vazio intelectual, veraneio, etc) .

  “Em outros círculos – diz o autor – são feitos debates acalorados com algumas pessoas instruídas e bem intencionadas reúnem-se ardorosamente e expulsam com fúria todos os prazeres inocentes, tais como o mexerico e o préférance (jogo russo), não nos círculos literários, obviamente”.

  Na crônica de maio de 1847, Dostoiévski, se delicia: - Quando um cidadão de Petersburgo fica sabendo de alguma novidade rara e corre a conta-la, ele sente de antemão uma certa volúpia; sua voz se torna lânguida e treme de prazer; e é como se estivesse o coração banhado em essência de rosas. E nesse minuto, enquanto ainda não comunicou sua novidade, enquanto corre ao encontro de seus amigos pela avenida Niévski, de súbito se liberta de todas as suas contrariedades.

  E ironiza: “O mexerico é saboroso, senhores! Sempre sabei que, se aparecesse em Petersburgo alguém com esse dom, que descobrisse alguma coisa nova para tornar nossa vida social mais confortável, algo que ainda não existe em nenhum país – juro que não sei, senhores, quanto dinheiro haveria de chegar a esse homem. Mas, nós continuamos tendo de nos arranjar com nossos artistas toscos, com nossos parasitas e galhofeiros. E há verdadeiros mestres! É uma maravilha criada pela natureza humana! De repente, e não que seja pela vilania, absolutamente, o homem deixa de ser homem e se torna um mosquito, um mosquito dos mais banais e insignificantes”.

  Isso foi escrito em 1847 quando ainda não existia sequer o telefone cujo invento Graham Bell revolucionou a comunicação a partir de 1876. Dostoiévski já aborda o que hoje se chama de “influencer”, de mexeriqueiros da internet, que sabem (ou supostamente sabem de novidades de alguém) e quanto dinheiro chegam a eles, senão ameaçam revelar as novidades, o que em Petersburgo naquela época se fazia nos restaurantes e cafés da Avenida Niévski, ao vivo, em outros circuitos que o autor classifica como “não literários”, mas aqueles do “préférence”.

  “O senhor pode ver através de seu homenzinho. O homenzinho, de sua parte, assegura que é totalmente transparente e tudo corre às mil maravilhas, o senhor sente bem que lhe cubra de elogios diretamente; isso é sórdido, é deplorável, mas o senhor acaba de perceber que o homem o elogia de modo inteligente, que ele aponta justamente aquilo que o senhor mesmo mais admira em sua pessoa”.

 Eis outra assertiva muito comum nos dias atuais entre alguns ditos “influencer” que, após possíveis ameaças de divulgação e ‘corre la plata’, muda o disco e passa a fazer elogios “de modo inteligente.

  Na crônica de 1º de junho de 1847 diz que o “habitante de Petersburgo fica tão entretido no inverno, tem tantos prazeres, afazeres, trabalhos, jogos de préférence, mexericos e várias outras distrações e, além disso, a sujeira é tanta que é pouco provável que tenha tempo para olhar em torno, para observar Petersburgo com um pouco mais de atenção, estudar sua fisionomia e ler a história da cidade e de toda nossa época nessa massa de pedras, nesses monumentos, nesses palácios e edifícios magníficos. () Há moradores que não saem se seu quarteirão há uns dez anos ou mais e só conhecem bem o caminho para a repartição onde trabalham. Há aqueles que nunca estiveram no Hermitage, no Jardim Botânico, num museu, nem mesmo na Academia de Belas Artes, enfim, nem chegaram a viajar pela estrada de ferro”.

   Fala da influência da França e do francês no meio citadino mais glamuroso: - Não me lembro, aconteceu-me de ler um livro em francês inteiramente constituído de considerações sobre a situação atual da Rússia. () O livro do famigerado turista foi lido em toda a Europa. Nele, entre outras coisas, foi dito que não há nada mais desprovido de personalidade do que a arquitetura de Petersburgo, que nela não há nada de particularmente notável, nada de nacional, que a cidade inteira não passa de uma caricatura ridícula de algumas capitais europeias. () Isso o turista se desmancha em reverência a Moscou, por causa do Kremlin, mas amaldiçoa as drojkis (carruagem leve). Isso está escrito por um francês, isto é, por uma pessoa inteligente, como quase todo francês o é, mas de um ponto de vista tão superficial e excepcional que chega a ser estúpido, que não reconhece nada que não seja francês – nem na arte, nem na literatura, nem na ciência, nem mesmo na história nacional.

  Dostoiévski era um crítico mordas ao estrangeirismo na Rússia endeusado por alguns círculos mundanos e até acadêmicos e fazia alerta de que o povo “é ignorante e sem instrução” e que a história era um assunto impopular e restrito a gabinetes por excelência.

   “Hão de dizer: o povo russo conhece o Kremlin de Moscou, ele é religioso e aflui dos quatro cantos da Rússia para beijar as relíquias dos taumaturgos moscovitas. Pois, bem, não há nada de especial nisso. O povo vai em multidão rezar em Kiev, na ilha Solovki, no Lago Ladoja, no Monte Aros, em, Jerusalém e por toda parte. Mas, será que ele conhece a história dos santos moscovitas, de São Piotr e de São Filip? Claro que não.

   “Crônicas de Petersburgo”, portanto, além dos leitores conhecerem traços inteligentes desta cidade e sua gente – povo e burguesia – do século XIX também passa a conhecer um “flâneur” russo de 26 anos de idade, jovem, intrépido com narrativas deliciosas.