SEMANA SANTA É TEMPO DE “BALAIO FECHADO”; JÁ FOI ASSIM OU AINDA É ASSIM? (TF)
Quem é mais antigo como eu que estou me aproximando de 60 anos, só no jornalismo, e nasceu no interior da Bahia, sabe que existia uma expressão popular muito usada na quaresma, especialmente durante a Semana Santa na região Nordeste, chamada “Balaio Fechado” quando senhoras (nem todas) evitavam fazer sexo durante o período quaresmal, até mesmo com os maridos.
Havia, ao que se propalava na minha querida Serrinha aquelas que levavam a expressão de forma radical e, de fato, fechavam o balaio durante toda a quaresma, que, como sabemos são 40 dias. E tinha “véi” e “maduros” que subiam nas paredes, aqueles fiéis até à morte às suas esposas; e outros iam ao Cabaré de Cecílio pedir um aconselhamento e conseguiam algo compensador. Algumas senhoras que também “subiam paredes” ou “esticavam os cabelos” com tal penitência, oravam.
Mas, também, havia dois tipos de senhoras consideradas mais liberais que a prática do “Balaio Fechado” só se aplicava durante a semana santa. Isto, entre o Domingo de Ramos e o Domingo de Páscoa. No Ramos, o cesto estava disponível até o sábado à noite pois, a partir do domingo de manhã, já com o ramo de palmeirinha ou ouricouri em mãos, a “bendita” era lacrada com o sinal da cruz em sua direção e três pancadinhas dos ramos na “senhorita alegre” e o balaio só era reaberto na Páscoa, após o jantar (as mais fogosas permitam após o almoço) com bacalhau e vinho, mas, não era recomendável comer muito para apreciar o outro petisco.
E tinham aquelas que só fechavam o balaio na quinta-feira santa, à tarde e boca da noite, quando se organizava a Procissão do Fogaréu e reabria-o no sábado de Aleluia, durante os folguedos da queima de Judas, quando as crianças brincavam nas corridas de saco e subiam no “pau de sebo” e as senhoras (e outras) também apreciavam o jacarandá, o ipê, a madeira que fosse de lei, sem envergar, e as solteiras alisava-os, pois, naqueles tempos, só se abriam balaios dessas dignas donzelas após o casamento, embora, algumas experimentassem o cedro antes.
As conversas - lembro bem – nos lugares que frequentávamos – no início da semana santa - no mercado municipal, na padaria de Limeirinha, no salão de Jardineiro, de sinuca, na Barbearia de Sêo Vicente, na procissão, nos campos de bola, na subida do Morro Guarani, eram as mais animadas e engraçadas.
“Bem que tentei, mas a mulher reluta em só ne dá depois da quaresma”; “rapaz estou na secura pior o que a seca de 30 e não consigo nada extra”; “não consegui ‘dá uma’ de jeito nenhum, mesmo pedindo pelo amor de Deus”; “sai foi na mão grande”, “vamos tomar umas e outras e esquecer” etc.
No bom baianês havia a expressão “dá uma” parente de “tomar uma”. Nós falávamos muito isso de “vamos tomar uma”, que significava “beber uma cerveja ou uma cachaça” e uma expressão mais completa como vimos acima era “vamos tomar umas e outras” que significava tomar todas (ou bebidas misturadas, cachaça com cerveja), etc. E a expressão “dar uma” ou “dá uma” o mesmo que “dar uma trepada”, “dar uma foda” – mas ninguém falava essas duas últimas expressões porque era feio. O mais comum era resumir para “dar uma” – que todo mundo entendia – e significa dizer fazer sexo, com as devidas variantes de “dei uma papai e mamãe”, “dei uma carinho de mão”, etc. E tinha aqueles gabolas que dizem “Ah! Eu dei foram duas”; e os mais cabeludos falavam até em “dar três numa mesma jornada”.
Na semana santa era assim. Claro, hoje, os tempos são outros os bares funcionavam na sexta-feira santa, há shows de música, etc, e tudo isso era proibido, o padre e o prefeito se uniam e baixavam uma lei temporária – uma portaria que era afixada no quadro de avisos da Prefeitura - fechando tudo na sexta santa e só abrindo no sábado de aleluia, inclusive o comércio normal de lojas de tecidos e outros.
Além do que, hoje, são raras as solteiras como antigamente que esperavam o matrimônio para agradar a “pachareca” e as senhoras estão mais ousadas, tanto as casadas, quanto as desquitadas, viúvas e titias. Mas não vou opinar sobre isso porque o lema feminista de algum tempo que popularizou no Brasil é “lugar de mulher é onde ela quiser”, frase atribuída a Gabriela Manssur, promotora de Justiça. Portanto, cada qual que cuide do seu cada qual à vontade.
O certo é que no tempo do “Fechamento do Balaio” na Serrinha a igreja católica era comandada pelo padre tradicionalista Demócrito Mendes de Barros, cuja atuação à frente da Paróquia deu-se entre 1950-1992 e durante os anos mais radicais, de uma igreja conservadora, o arcebispo primaz da Bahia era o pernambucano dom Álvaro Augusto da Silva, com gestão entre 1924 e 1964, a quem Serrinha estava subordinada.
Na semana santa as mulheres só entravam na igreja matriz usando vestidos longos e véus nas cabeças e os homens de calça e camisa de mangas compridas. Nada de bermudas para homens e mulheres de calças e saias curtas.
A semana santa começava com a procissão de Ramos, no centro, nos três primeiros dias da semana praticamente não havia nada, na quinta o padre celebrava uma missa no inicio da noite seguida da Procissão do Fogaréu (desde 1930) somente no centro da cidade, sexta subia-se o Morro Guarani, a procissão do Senhor Morto, no sábado a Aleluia e no domingo a missa de Páscoa.
A partir dos anos 1960/1970, com a abertura da igreja sob o comando do Papa João XXIII e o Concílio Vaticano II, e as Encíclicas “Pacem in Terris” e a “Mater e Magister”, focadas em temas sociais, e também com os movimentos de emancipação das mulheres, a Procissão do Fogaréu passou a admitir a presença de mulheres no cortejo, Serrinha se tornou Diocese na gestão do papa Bento XVI, em 2005, surgiram novas igrejas evangélicas, e a tradição do “Balaio Fechado” caiu por terra.
Há, ainda, aquelas que durante a sexta-feira santa, considerado dia da morte de Cristo, nem pensar naquilo, embora seja uma data móvel, a maça do balaio fica guardadinha, dormindo. (TF)