Cultura

SALVADORES CONTO 9: ÉDEN DOS BUROCRATAS E RAID DAS MOÇAS DO PALETÓ- TF

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Tasso Franco , Salvador | 12/04/2026 às 09:44
O paletô de Pânfilo e o raid das moças
Foto: Seramov
  9. O RAID DAS MOÇAS DO PALETÓ
 
 

  Salvadores tem seu paraíso dos burocratas. Ajardinado, protegido por seguranças, com prédios em arquitetura moderna belíssimos onde se sobressai o concreto aparente, o estrutural à vista sem reboco, e são muitas as repartições, secretarias, sub secretarias, tribunais, institutos, departamentos, seções, enfim um universos habitado e movimentado por homens engravatados, mulheres em salto alto e tailleurs – conjunto clássico de blazer e saia ou blazer e calça - servidores fardados com quepes vivendo no Jardim do Eden, não se sabe se foi uma criação de Deus nos primórdios da Gênesis ou algo que ele fez depois, dado a semelhança,  acolhidos com comida subsidiada ou de graça, transporte, carros oficiais com motoristas e assessores ´para abrir portas, celulares, plano de saúde, gratificações, tudo pago pelos contribuintes pátrios.
 
  É lindo, formoso e há Adões e Evas exuberantes, apaixonados pelo labor, pelo trabalho, pelo bem servir, ainda que possa haver como é o caso do servidor Pânfilo Gregório Santos, dedicado escrevente posto na repartição como comissionado a pedido de um político graduado e que no decorrer dos anos, graças ao seu esforço próprio, ao seu denodo, conseguiu numa janela que se abriu diante também de uma ação politica de um deputado, efetivar-se como aqueles que, na atualidade, só conseguem por concurso público, mas, Pânfilo, antigo que era e é, dos anos 1980, se encaixou na boca efetiva para nunca mais sair.
 
  E, diga-se de passagem, não foi só ele, houve um trem o que se chamou do maior Trem da Alegria de Salvadores e centenas, quiçá milhares de pertinentes burocratas, homens e mulheres que dedicaram suas vidas aos carimbos e aos papéis, resolveram muitas e muitas demandas a pedidos e outras tantas por dever de oficio, hoje com direito permanente a viverem no Paraíso até que sejam aposentados, mas, muitos deles não querem saber de aposentadorias porque perdem gratificações, penduricalhos, jetons, arranjos cumulativos e isso não é salutar, deixa-se de ganhar boas somas e sem as boas somas como comprar joias e novos tailleurs nos shoppings.
 
  Pânfilo, no entanto, era o que se podia chamar de burocrata de padrão elevado com sua mesa e cadeira forradas de papéis, cumpridor do seu dever, fiscal de feitos e havidos, copista de atas, vez por outra ou quase sempre se ausentava da repartição para ir almoçar numa tenda que servia uma galinha do molho pardo deliciosa numa quebrada do bairro da Sussuarana Nova e por lá ficava horas a saborear esse prato que considerava o mais delicioso da city e, claro, tomando as suas brahamas com espuma, fumando um Dona Flor, paquerando a distinta senhora proprietária do “Louva a Deus”, dona Iracema, uma cabocla peituda, cabelos lisos como uma tupinambá de Itaparica, bunda admirável com polpas que se alternavam em sobe e desce no andar, aquela calça jeans apertada com celular posto no bolso traseiro o que fazia um efeito estonteante na cabeça de Pânfilo toda vez que ela cruzava o salão para atender algum clientes, mas, ele, apenas espiava, cubava, sem dizer palavras e ela entendia seu olhar por cima da lente do óculos, seu sorriso de canto de boca e sabia de suas intenções, dos seus desejos de querer navegar nas ondas do seu mar, e assim se paqueravam em silencio, diria que se amavam silenciosamente.
 
  Certa ocasião, na época da quaresma ao que se presume Pânfilo foi acometido de Covid e desapareceu da repartição para mais de 30 dias e como deixara seu paletó no espaldar da carteira, quem por ali passava no decorrer de sua ausência imaginava apenas que ele teria ido urinar ou lanchar na cantina da repartição e logo voltaria, e os outros servidores em suas salas e seções pouco estavam se incomodando com isso dado os seus afazeres, as suas tarefas a cumprir, e não iriam ficam procurando saber onde se encontrava o escriturário, ainda mais sabendo que era um funcionário exemplar - barnabé de escol - e logo estaria de volta.
 
  O certo é que um servente chamado Eduardo, conhecido como Edu da Mata Escura, apelido que tinha devido o bairro onde morava, certo final de semana percebendo que o paletó seguia no mesmo lugar e notara que Pânfilo desaparecera da repartição, pois, pouca asseava a sua área, sempre limpa e com os mesmos papéis sobre a mesa, uma caneta tinteiro no gancho, resolveu experimentar o paletó, fechou a porta da seção onde ele trabalhava, moldou-o em seu corpo, viu que caiu muito bem ajustado e resolveu leva-lo consigo pois no domingo batizaria sua netinha Tieta e nada melhor do que se apresentar para o evento de maneira elegante.
 
  Ora, quando Edu da Mata chegou em casa vestido no azul marinho sua esposa Lucélia, que raramente o via assim, ou melhor nunca o vi assim, tomou de grande surpresa e perguntou se ele havia ganho na loteria. Ele então narrou que assinara uma rifa na repartição, chamado “Raid dos Números” apenas R$5,00 cada número marcado, e escolheu o 1 que era a data de aniversário da neta quando seria feito o batizado na Paróquia de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, na Rua Direita da Mata, com padre Azevedo, e foi o sorteado, nada de marmelada porque o número correu com o terminal da Loteria Federal que deu 245601, valendo o 01, pois.
 
  Dona Lucélia não comeu o reggae dele achando que por baixa daquela cartola o coelho não era branco e sim pardo, mas o importante é que ele estava bonito como nunca usando aquele paletó com botões dourados e correu ao quintal, colheu uns cravos vermelhos e pós na lapela e disse que seria assim que compareceria ao batizado.
 
  E assim sucedeu meu caro leitor, Edu da Mata era o mais elegante da cerimônia religiosa, elogiado por todos e uma costureira chamada Damares, que morava no Cabula - mesmo bairro onde residia Pânfilo - e havia, certa ocasião, consertado os botões dourados de sua veste, a seu pedido, pois dois deles já estavam a cair tão frouxos se encontravam precisando de um reforço de linhas e Damares era caprichosa nisso, cerzia como ninguém, ajustava dobras e botões com precisões e também participava do batizado da neta de Dona Lucéluia, que era sua cliente e a convidara para o batismo, observava com atenção aquele paletó e viu que tinha sua marca, viu que a costura era sua, o ponto cruzado, o arremate em x prefeito, e desconfiou que aquele seria o paletó do barnabé Pânfilo e nada disse no momento do batismo quando o padre Azevedo jogou uma cuia d’água na cabeça da criança e a netinho chorou e esperneou, barrufando o paletó com a água  e ela estava ao lado de dona Lucélia, que, por vez, estava colada em Edu, e ela cubou bem a veste e não teve dúvidas de que era o paletó de Pânfilo, e na hora do coquetel, na verdade um lanche que Dona Lucélia organizou para os convivas, pasteis e quibes que fritara em sua casa e mais dois ou três litrões de guaraná, se aproximou de Edu, elogiou sua elegância e disse-lhe no pé do ouvido que conhecia aquele paletó e sabia quem era seu dono.
 
   Diria que Edu da Mata se transfigurou o mulato ficou pálido, da cor da vela que usava para os ritos batismais, quis soletrar alguma resposta, mas sua boca estava travada e quando falou algo tropeçando nas sílabas confessou: - Foi-me emprestado pelo exemplar escriturário, assegurou.
 
  Damares conhecendo como conhecia Pânfilo, dizem que costurara para fora certa ocasião de idílio temporário e fugaz com ele, homem pobre, que não costumava dar nada a ninguém, até porque não tinha o que dar, vivia numa pobreza assemelhada a São Francisco de Assis e ela então retrucou em frase curta e grossa: - Duvido que tenha acontecido isso.
 
   Portanto, sem saída, nervoso, sendo observado pela esposa Lucélia confessou que havia pego o paletó emprestado por conta própria uma vez que, Panfilo sumira da repartição e a veste ficava dando bobeira na carteira e ele não vira nada demais em usá-lo temporariamente, mas, na segunda devolveria ao dono ou a carteira.
 
  E vocês sabem que coisa ruim é como rastilho de pólvora e Edu temendo que o assunto caísse na boca do povo que seria fatal para ele, pediu ao seu cunhado Feitosa, que era irmão de Lucélia, pessoa, pois, de sua confiança que fizesse várias fotos dele envergando o paletó, mas, destacando apenas a veste e cortando sua cabeça, pois, tivera uma ideia que considerava brilhante e logo confidenciou ao cunhado, que era capoteiro e remodelava sofás, mas sua esposa Sara atuava na mesma terceirizada que ele trabalhava na limpeza das repartições do Jardim do Eden, que poderia promover uma rifa “Raid das Moças”, com 100 nomes de mulheres, rifando inicialmente o paletó, na verdade a foto do paletó, pois, quem ganharia a primeira rodada seria Feitosa, cujo primeiro nome era Davi, tanto que sua tenda se chamava Davi Estofados e tinha alguns clientes em Mata, Coroado, Brasilgás e adjacências.
 
   E como seria isso? - quis saber Feitosa. E ele explicou que cada nome marcado no Raid das Moças – que começava com a letra a o nome Ana e terminava com a letra de Zilda, tinha, portanto, 100 nomes e um deles coberto com uma traja preta guardava em segredo o nome da vencedora daquela cartela, mas, ele já astuciara que colocando uma luz bem forte de boca de abajur de mesa na direção do local dava para ver o nome que seria contemplado, e, obviamente, esse nome seria logo marcado pelo cunhado. E, em sendo assim, arrecadado 1 mil reais – 100 números cada qual a 10 reais – seria uma ajuda extra, ele o idealizador da rifa ficará com 50% e os demais vendedoras com os outros 50% e só fossem 5 vendedoras arregimentadas por Sara cada uma levava 100 reais.
 
   - Isso vai dar merda meu caro e não tendo mais saúde para ir à cadeia, quiçá a penitenciaria aqui do bairro.
 
   Que merda! Que cadeia! Tudo limpo: a única coisa que v tem a dizer, se alguém lhe perguntar, é que você foi contemplado e recebeu o paletó.
 
  - E se alguém quiser ver o paletó?
 
 - Que alguém!
 
   E, assim, a rifa rolou. As serventes articuladas por Sara caíram em campo, nas repartições, nos tribunais, na Casa das Leis, no fórum, na governança, com o apelo de ajude-nos com apenas R$10,00 e a possibilidade de ganhar um belíssimo paletó e isso sensibilizou os mais graduados e surgiu logo um grupo ajudando e a primeira cartela encheu em menos de uma semana e o nome que apareceu no quadrinho negro foi Marta, o vencedor sendo Feitosa.
 
  E quem perguntava nas repartições quem fora o vencedor as meninas diziam que deu Marta e logo correu uma nova rifa e deu Clara. E numa terceira deu Donizete; e começaram a desconfiar que só rifavam paletós e que a foto mostrada pelas vendedoras parecia a mesma, única, e a merda prevista por Feitosa deu de cara.
 
   E, por acaso, com dizem que o destino é fatal e o tal do fado cósmico partiu sem querer da esposa de Edu da Mata, dona Lucélia, que ao encomendar uma roupinha para a netinha a Damares perguntou sem querer se ela já ouvirá falar na rifa do paletó e se seu esposo o inspetor Garrido já havia assinado, pois, seu nome Damares fazia parte do "Raid” ao lado de Dolores, Dora, Daniela, Diana e Dalva que também começavam com D e Damares que já estava com a pulga atrás da orelha com o uso do paletó de seu cliente Pãfilo, subiu nas tamancas e quis saber em detalhes a maracutaia e Lucélia foi narrado tim-tim por tim-tim e ela descobriu que se tratava de rifas da foto do paletó, um absurdo, um fato lamentável, e levou o assunto inspetor seu esposo, o qual, por sua vez, falou ao delegado Tadeu, titular da 19ª, que, de se sua parte, já investigava outros casos de rifas e bingos de automóveis, e intimou o Edu para esclarecimentos. Até um padre estava envolvendo na rifa de um veículo, rifa passada pelos fieis de sua Paróquia, e que o cura ganhou.
 
   O dito intimado, servente Edu, compareceu a especializada com a cara e a coragem, desacompanhado de advogado entendendo que não cometera crime algum, as rifas existiram e os prêmios foram conferidos aos ganhadores, porém tropeçou e engasgou nas respostas quando o doutor fez-lhe algumas perguntas que não soube responder ao certo, “onde havia comprado os paletós rifados”; “se tinha notas fiscais da compras”; “se possuiu o endereço completo dos ganhadores para também serem intimados”; "qual a marca dos produtos rifados”; “quem passava as rifas para ele” e assim sucessivamente.
 
   Edu respondeu que a confecção era própria, o alfaiate era de bairro e não tinha nota fiscal e só sabia que ele se chamava Alfredo, que os ganhadores ele não conhecia, só um deles, de vista, e eram, servidores de sua terceirizada que o ajudavam na venda as rifas.
 
   Perguntado se conhecia Davi dos Estofados e se este era seu cunhado casado com dona Sara respondeu que “sim, que conheço”.
 
  - É verdade que Davi foi o vencedor da primeira rifa marcando o nome de Marta e acertando com o pagamento de um único bilhete, respondeu que ele foi o ganhador, mas, não saberia dizer se ele assinou um ou mais nomes.   
 
  O delegado então liberou Edu e disse que convocaria Davi para um depoimento na próxima semana e ele teria que comparecer a especializada levando consigo o brinde sorteado.
 
  Assim que Davi Feitosa recebeu a intimação da 19ª se sobressaltou, pois, não havia paletó e somente a foto, procurou Edu para encontrarem uma solução, se fosse o caso comprassem um paletó nalgum brechó, porém, Edu disse que o dinheiro que ganhou na rifa havia rebocado uma banda de sua casa e não tinha mais nenhum níquel, porém, “nada nesse mundo que não se resolva com imaginação” – assim falou ao cunhado – e disse que procuraria o dono do paletó, o escriturário Pânfilo, e pediria a veste emprestada para que usasse num batizado.
 
  Davi lavou as mãos e respondeu: - É com você, se der uma merda nós dois iremos para onde se vê o sol nascer quadrado.
 
  -Quando é a audiência? – perguntou Edu.
 
  - Na quarta-feira respondeu Davi.
 
  - Hoje ainda é segunda, dá tempo para tudo – aquiesceu Edu.
 
  À tardinha, quando se deslocava para o serviço da faxina nas repartições, Edu chegou mais cedo na sala de Pânfilo e encontrou o escrituário envolvo em papéis e após cumprimenta-lo, Pânfilo disse “vieste mais cedo hoje, o expediente termina às 18h”, no que Edu respondeu, “vim fazer um pedido ao nobre amigo de tantos anos”. Ora, pois, “não se acanhe, peça”.
 
   Assim falou Edu humildemente: “Gostaria que V. Exa. me emprestasse seu paletó para eu usar no batizado de minha netinha, que acontece na quarta-feira”.
 
  -Fique à vontade. Pegue-o na cadeira e veja se cabe bem em você e sendo assim leve-o e devolva na quinta.
 
  Edu colocou o paletó numa sacola de plástico e levou-o consigo e assim foi possível Davi comparecer a delegacia vestido naquele paletó azul marinho com botões dourados, tal como dizia os dizeres da rifa.
 
  Na audiência, o delegado conferiu tudo, mandou tirar fotos do depoente para anexar no palavrório da intimação e liberou o depoente sem quaisquer acusações apenas estranhando que a sorte tenha batido logo na porta do cunhado do rifeiro e fez as perguntas de praxe, se de fato assinara a rifa e porque marcou o nome Marta.
 
  - Excelência, comprei apenas 2 bilhetes e marquei Marta e Sara, por serem, a primeira minha cunhada e a segunda minha esposa.
 
  - És um homem de sorte, comentou o delegado, liberando-o após a assinatura do depoimento.
 
  Uma sorte limitada, pois, no retorno para casa, ao saltar do buzu nas proximidades de sua estofaria foi assaltado por dois pivetes que usavam um simulacro de pistola e lhe pedira, (com aviso) “a bolsa ou a vida” e como Davi disse que só tinha 20 reais no bolso, o documento de identidade e o papel da delegacia, os pivetes então exigiram que lhes dessem o paletó, mas ele ficou nervoso de tal maneira e respondeu “que era de um amigo, não poderia dá-lo e o pivete maior apontou o simulacro da arma para seu rosto e ele viu que a arma era de madeira e partiu pra cima do pivete em luta corporal e começou a gritar por socorro e logo apareceram pessoas para lhe ajudar e espantaram os pivetes a porrete, porém, como podemos auferir o paletó ficou com muitos amassados, um rasgo e sem dois botões.
 
   Já em casa passado esse tremendo susto sua esposa Sara deu um jeito de consertar o paletó, porém, não ficou o mesmo.
 
                                                                             **
 
  Os fados, no entanto, são tenebrosos e eis que a esposa do inspetor Garrido querendo saber como fora o depoimento de Davi na especializada, se o elemento havia comparecido usando algum paletó, o inspetor não só disse que sim como mostrou o papel da audiência onde se via uma foto do depoente com o paletó azul.
 
  Damares cubou a fotografia com a lente dos seus óculos, colocou uma lupa para enxergar detalhes mais de perto e afiançou: - Este paletó eu conheço é de doutor Pânfilo.
 
   Garrido ainda tentou dissuadir a esposa, porém, mais uma vez o destino, esse cruel destino deu as caras e bateu na sua porta e quando ela abiu era Pânfilo trazendo consigo o paletó e pedindo um novo conserto, pois, emprestara o dito para um amigo participar de um batizado e houve uns estragos.
 
  - Mas, como assim houve estragos., Falta um dos botões dourados! Admirou-se Damares.
 
   Pânfilo então contou-lhe que havia emprestado o paletó ao servente Edu, a pedido deste para participar do batizado da neta e, segundo o servente, após a festa religiosa do batismo ele retornando para casa com sua esposa foi assaltado na Rua Direita da Mata Escura e entrou em luta corporal com os bandidos daí houve esses rasgos na veste.
 
 - E o senhor acreditou nessa conversa?
 
- Bem, conheço Edu há muitos anos, na repartição, e creio que não é um mentiroso.
 
-  Pois, vou contar a história real pro senhor saber com quem está lidando e assim falou: - Seu paletó foi surrupiado quando da Covid e o senhor deixou-o no espaldar da cadeira da repartição, esse ousado do Edu pegou-o para vestir no batizado da netinha, não agora, mas noutra época, e depois resolveu fazer uma rifa “Raid das Moças” do paletó, recolocando o paletó onde havia surrupiado e usando uma fotografia do mesmo para vender a rifa, e o fez mais de uma vez, três cartelas, até que foi denunciado a Policia porque os ganhadores eram os mesmo. Ou seja, cometeu uma fraude usando a foto do seu paletó como isca.
 
  Como o delegado Tadeu está apurando o caso diante de uma queixa, o vencedor da primeira rifa seu cunhado Davi teve que ir à delegacia depor e foi ai, coisa recente, que ele pediu o paletó emprestado usando um ardil, uma mentira, dizendo que era para usar no batizado da neta, porém, era para seu Davi se apresentar ao delegado. E, ao que se sabe, foi esse Davi o assaltado por pivetes e o paletó foi estragado.
 
  - Então, aconselho o senhor dar uma queixa desse desnaturado ao delegado Tadeu.
 
  - Ora dona Damares, não posso fazer isso com um pobre coitado, que vive pior do que eu, um relés servente do serviço público.
 
  - Então, se permites falarei com meu esposo, que é inspetor de quarteirão e solicitarei ao delegado que lhe intime, para o senhor limpar sua honra.
 
 - Bem, que assim seja, mas não desejo prejudicar ninguém.
 
   No dia da audiência, usando o paletó que era seu, que Damares havia novamente consertado e voltou a ficar decente, “novo em folha”, compareceu a especializada e quando perguntado pelo delegado Tadeu se sabia da trama, do uso do seu paletó para o crime das rifas falsas, disse que não sabia de nada, perdoava o infeliz que assim agiu, e o delegado quis saber como o servente surrupiou o paletó, e Pânfilo confessou que durante a Covid se ausentou da repartição por 40 dias, se recuperando, e havia deixado no paletó na cadeira, por esquecimento, e certamente tinha sido na sua ausência que o serventuário o pegou.
 
   O delegado quis saber se ninguém em sua repartição não sentiu sua ausência no trabalho, não comunicou ao seu chefe superior, ele respondeu que não, ou não saberia dizer se sentiram falta, acha que não, que seu trabalho é de escriturar atas, de transpor gravações de reuniões e outros para o papel, portanto, “confesso ser um burocrata como muitos que há nas repartições, de real valor, porém, invisíveis”.
 
  E mais disse Pânfilo ao delegado que, “como o senhor sabe que também é da máquina pública, essa locomotiva tem os de cima, os do meio e os de baixo e o trem anda sozinho” e o delegado não se sentiu ofendido, pelo contrário, respondeu que “a vida é assim mesmo, que estava também no trem, na parte do meio e cumpria seu dever batendo o todos os dias”.
 
  E Pânfilo também disse que batia o ponto religiosamente há mais de 30 anos e, eventualmente, deixava o paletó na cadeira para ir na tenda “Louva a Deus”, comer uma galinha de molho pardo, na Sussuarana Nova, que era perto da repartição e as vezes ficava por lá tomando umas brahamas e só voltava na repartição um ou dois dias depois, “a depender da ressaca” e o delegado ficou até com compaixão de Pânfilo e o dispensou dando-lhe um forte abraço.
 
   Ao que se registrou no “Correio de Salvadores”, em reportagem recente, nas repartições, nas seções, nos corredores dos tribunais e da casa que vota as leis, no fórum, no centro de vigilância, pululam milhares de funcionários ainda aparece uma outra rifa após as denúncias dos casos do paletó e da rifa do padre, mas tem senhoras que seguem vendendo quentinhas nos corredores das repartições, encomendas de perfumes Aton, tem o engraxate engravatado, organizadores de bolões, tem as vendedoras de beijus e tapiocas que veem do interior, as baianas do acarajé, as feirinhas de natal, semana santa e são Joao e São Pedro, enfim, um universo paralelo que Sêo Edu da Mata se meteu e agora está noutra luta defendendo em passeatas no Jardim do Eden que os serventes das terceirizadas sejam efetivados como servidores públicos com direito a plano de saúde e tudo mais.
 
  Nada mais justo. Dona Sara gostou das rifas do paletó dinheiro bom e fácil de entrar como adjutórios e resolveu -ao que dizem - fazer rifas de vestidos - tailleurs, e já fotografou três modelos nas vitrines de um shopping.