Cultura

MUNCAB INAUGURA “PADÊ ONÃ – ENCONTRAR CAMINHOS”, DE SANDRO AIYÊ

MUNCAB inaugura “Padê Onã – Encontrar Caminhos”, de Sandro Aiyê, e reposiciona Exu na escultura contemporânea
Ascom MUNCAB , Salvador | 30/04/2026 às 07:17
Padê Onã - Encontrar Caminhos
Foto: Daniel Cerqueira

O Museu Nacional da Cultura Afro-brasileira (MUNCAB) inaugura, na quinta-feira (30), a exposição Padê Onã – Encontrar Caminhos, do artista visual Sandro Aiyê, com curadoria de Jamile Coelho e Jil Soares. Reunindo sete esculturas de grandes dimensões em madeira de demolição, a mostra se estrutura a partir da materialidade e da presença, inscrevendo no espaço figuras que operam no campo da escultura contemporânea a partir de referências negras.

As obras partem de madeiras marcadas pelo uso, reorganizadas em estruturas verticais que tensionam equilíbrio, escala e permanência. A matéria não é neutralizada e suas marcas permanecem visíveis, incorporadas à construção formal. O trabalho se dá na articulação entre transformação e continuidade, produzindo uma leitura em que memória e matéria operam no presente.

“Existe um interesse em trabalhar com aquilo que já carrega história, mas sem fixar essa leitura. O trabalho é reorganizar essa matéria para que ela produza outras presenças”, afirma Sandro Aiyê.

A exposição mobiliza Exu como um princípio de articulação ligado ao movimento, à mediação e à abertura de caminhos. Longe de uma leitura restrita ao campo religioso, sua presença opera no plano simbólico e cultural, organizando relações entre obra, espaço e circulação. Ao situar essas figuras no campo da escultura contemporânea, em escala ampliada e em relação direta com o público, a mostra desloca leituras estigmatizadas e reinscreve essas referências em um lugar de centralidade.

O título da exposição aponta para esse movimento. “Padê” é mobilizado como gesto inaugural, associado à criação de condições para o início e a circulação. “Onã”, palavra de origem iorubá, significa caminho. A união dos dois termos indicam a abertura de percursos e a construção de possibilidades no espaço.

Para os curadores Jamile Coelho e Jil Soares, a exposição se organiza a partir da relação direta entre corpo, obra e ambiente. “As esculturas não operam como objetos isolados. Elas estruturam o espaço e exigem deslocamento, construindo leitura a partir da presença”, afirma Coelho.

A mostra é apresentada no Jardim das Esculturas, novo espaço a céu aberto do MUNCAB, instalado em uma área que abrigou uma Delegacia de Jogos e Costumes, historicamente associada à repressão de práticas culturais negras. A ocupação do espaço desloca esse histórico ao estabelecer outra relação com o território, convertendo um lugar de controle em um espaço de circulação e presença pública.

Para a diretora-geral do MUNCAB, Cintia Maria, o projeto articula produção contemporânea e reposicionamento institucional. “Ao trazer essas obras para esse espaço, o museu afirma a centralidade dessas referências e estabelece uma relação direta com a cidade, ampliando o acesso e a circulação”, afirma.

Com Padê Onã – Encontrar Caminhos, o MUNCAB consolida uma linha de atuação que insere a produção contemporânea negra no centro do debate artístico, tensionando leituras e ampliando os regimes de visibilidade.