Cultura

NELSON CERQUEIRA ANALISA TRATADO DEDICADO À POSEIA DE TAURINO ARAÚJO

Escritor de trajetória consolidada na literatura e na crítica, Nelson Cerqueira amplia agora sua produção com A caturna, de Taurino Araújo: um tratado crítico, estudo de 48 páginas inteiramente dedicado a um único poema.
Da Redação , Salvador | 20/08/2026 às 09:23
Nelson Cerqueira
Foto: DIV

Membro da Academia de Letras da Bahia, professor, poeta, jornalista, crítico literário, ensaísta e romancista, Cerqueira reúne formação acadêmica internacional e uma obra marcada pela circulação entre diferentes gêneros. Doutor e mestre em Literatura Comparada pela Indiana University, nos Estados Unidos, construiu ao longo dos anos uma produção que passa pela crítica de autores como Franz Kafka, Agostinho Neto, William Faulkner, Graciliano Ramos e Jorge Amado, além da ficção. Seu percurso como romancista também lhe deu reconhecimento de público e de crítica, especialmente a partir de Martin: Judeu brasileiro e sem dinheiro.

Essa experiência múltipla reaparece no novo tratado. Em vez de se limitar ao comentário pontual, Cerqueira acompanha a imagem central de A caturna em todas as suas derivações. A palavra rara que dá título ao poema de Taurino Araújo deixa de ser apenas uma peça associada aos pés e passa a organizar uma rede de sentidos em que língua, calçado, corpo, passo, pegada, memória e permanência se articulam.

A força de Nelson como crítico está justamente nessa capacidade e nesse fôlego para aprofundar a imagem sem perder clareza e leveza de expressão. Ele acompanha a relação entre Portugal e Bahia, observa o diálogo entre Taurino e Olavo Bilac, examina a construção autobiográfica do eu lírico e mostra como a Língua Portuguesa deixa de ser abstração para se tornar matéria de travessia, desgaste e inscrição. Ao mesmo tempo, preserva independência crítica ao reconhecer diferenças de intensidade entre os 96 versos e ao apontar passagens mais retóricas ou sintaticamente ásperas.

Esse equilíbrio entre erudição, sensibilidade literária e experiência narrativa ajuda a explicar o alcance do ensaio. O romancista atento à construção de personagens e conflitos reaparece no crítico que acompanha voz, corpo, memória e percurso; o ensaísta acostumado a sistemas de pensamento surge na leitura capaz de analisar exaustivamente uma única imagem poética e demonstrar como ela pode sustentar a arquitetura de um poema épico inteiro.

Depois desse percurso, Cerqueira chega às formulações mais altas do estudo. Taurino Araújo aparece como herdeiro, condutor e transformador de uma tradição milenar e é definido como “utente, intérprete, renovador e monumento vivo da Língua Portuguesa”. O crítico afirma ainda que o poeta deixa no idioma uma “cicatriz autoral” destinada a sobreviver ao corpo físico, legando à posteridade “a potência de uma voz inconfundível”.

Na conclusão, a análise ultrapassa o poema isolado e alcança questões mais amplas de linguagem, memória, mortalidade, criação e sobrevivência da obra. Cerqueira sustenta que poesia e pensamento convergem de tal modo em A caturna que as designações de “poeta” e “pensador”, tomadas separadamente, já não bastariam para dimensionar Taurino Araújo.

Mais do que uma simples resenha, A caturna, de Taurino Araújo: um tratado crítico se apresenta como um dos pontos altos da produção crítica de Nelson Cerqueira, uma leitura de fôlego e uma chave ampla para a poética do autor. Cerqueira analisa sob diversos ângulos uma palavra quase esquecida e mostra como, dentro dela, podem caber língua, corpo, história, memória e permanência.

A íntegra de A caturna, de Taurino Araújo: um tratado crítico, de Nelson Cerqueira, encontra-se publicada aqui:
https://doi.org/10.5281/zenodo.21993118