Cultura

IDENTITARISTAS QUEREM MUDAR NOME DO ELEVADOR LACERDA,p WALDECK ORNELAS

Waldeck Ornélas é especialista em planejamento urbano-regional. Autor de
Cidades e Municípios: gestão e planejamento.
Waldeck Ornelas , Salvador | 07/09/2026 às 22:17
Depois do Elevador Lacerda será a vez de Salvador
Foto: BJÁ

Há uma nova moda na praça: a atribuição de naming rights ideológicos. Trata-se de um remanescente da cultura woke, já em declínio, mas que em Salvador, ao que parece, continua na ordem do dia. O alvo agora é um dos mais importantes símbolos da cidade – a nossa torre invertida –, o Elevador Lacerda.

A porteira foi aberta com a mudança dos antigos nomes, tradicionais e populares, da Praça Cairu, na Cidade Baixa, e da Ladeira da Praça, na Cidade Alta, ambos no Centro Histórico, mediante aprovação pela Câmara de Vereadores e sanção pelo Prefeito municipal.

Será uma investigação certamente despicienda, feita pelo Ministério Público Estadual, para verificar se, por acaso, o engenheiro Antonio de Lacerda, que implantou, explorou e dá nome ao elevador, teria tido algum vínculo com a escravidão, como se houvesse a possibilidade de quem fosse grande proprietário àquela época não ter sido senhor de escravos. Certamente, é uma investigação do óbvio.

É verdade. O MPE vai dedicar o seu precioso tempo útil a pesquisar relações sociais do passado – papel da academia –, como se não houvesse nada mais relevante a fazer, tal como, por exemplo, combater o crime organizado.

Em tendo isto sido verificado, o internacionalmente famoso Elevador Lacerda deverá ter a mudança do seu nome proposta para algum outro, ainda não revelado, mas simpático aos articuladores dessa infeliz iniciativa. Será, não importa qual, algum naming rights ideológico.

Pelo andar da carruagem, em breve, o próprio nome da Cidade será mudado. Será posto em dúvida se realmente a cidade mereceria ter sido batizada como Cidade do Salvador da Bahia de Todos os Santos, não se tendo ainda notícia da existência de um nome de origem indígena anterior, na medida em que a Cidade só foi fundada em 1549, com a chegada de Tomé de Souza, o primeiro governador geral do Brasil. 

Mas não seja por isso, haverá de ser arranjado algum outro nome que, por qualquer razão que seja – as
narrativas são fáceis de serem construídas – deva substituir o nome do Senhor.

Salvador da Bahia, um dos mais importantes destinos turísticos do país, sumirá do mapa. Em seu lugar surgirá quem sabe .... melhor não dar ideia, vai ver que pega.

Terá início então o trabalho de divulgação global de uma nova cidade, de repente criada nos trópicos. Não será comparável a uma contemporânea Dubai, nem terá o traçado modernista de uma Brasília. Terá os mesmos atrativos culturais, paisagísticos, históricos, ambientais e turísticos da outrora quincentenária Salvador. Mas isto é o de menos, o importante é colocar um naming rights ideológico.

A Salvador de hoje pode ser, quem sabe, reapresentada ao mundo como sendo a descoberta da Atlântida, a cidade perdida...

É impressionante como, com facilidade, pretende-se apagar a História, para reescrevê-la ao bel prazer dos interesses identitaristas – cujo único mérito é dividir a sociedade, colocando uns segmentos contra outros – e isto é aceito, complacentemente, pelas autoridades, pela academia, pela imprensa, pelas entidades civis, enfim, por todos aqueles que deveriam zelar pela Cultura da nação, pela imagem do país, pela herança
social. Prevalecem as estórias, sem nenhum respeito ao passado.

Nenhuma outra cidade brasileira terá sido tão afetada por esse devaneio como a primeira capital do Brasil. Aqui, mudam o nome dos logradouros como se isto alterasse a natureza das coisas.

Não há dúvida, existe aqui algo de podre, tal como no Reino da Dinamarca do personagem de Shakespeare.
Ainda há tempo da cidade voltar a ser respeitada.