Entidade defende remuneração por hora ao entregador e afirma que fixar valores por entrega traz prejuízos ao setor e às classes B e C
ABRASEL , d Salvador |
13/03/2026 às 18:50
Lá vem mais ferruada em seu bolso
Foto: Mikhail Nilov
A Abrasel manifesta preocupação com as propostas em discussão no Congresso que preveem o tabelamento da taxa de entrega no delivery. Para a entidade, a fixação de um valor mínimo obrigatório por entrega tende a encarecer o serviço, reduzir a demanda e manter o delivery restrito a uma parcela menor da população, especialmente afastando consumidores das classes B e C, que têm menor capacidade de absorver aumentos de preço.
O delivery brasileiro é baseado, em sua maioria, em pedidos de baixo valor e em entregas de curta distância. A imposição de uma taxa mínima nacional desconsidera essa lógica e cria um custo artificial que acaba sendo repassado diretamente ao consumidor. Na prática, o pedido fica mais caro e o serviço perde frequência, tornando-se cada vez mais elitizado. Esse movimento impacta bares e restaurantes, que dependem do delivery para uma parcela relevante do faturamento, e também os próprios entregadores, que passam a ter menos pedidos disponíveis.
Para a entidade, o debate sobre a renda dos entregadores precisa avançar por outro caminho. A Abrasel defende modelos que valorizem o ganho por hora trabalhada, com mais previsibilidade e proteção social, em vez do tabelamento por entrega, que afasta o consumidor e reduz o número de pedidos. “Quando se fixa um valor mínimo por entrega, o efeito imediato é encarecer o serviço e espantar quem pede. Isso diminui o movimento dos restaurantes e reduz a renda total dos entregadores. O caminho mais inteligente é pensar em remuneração por hora, que garante dignidade ao trabalhador sem elitizar o delivery”, afirma o presidente-executivo da Abrasel, Paulo Solmucci.
Segundo ele, o desafio é construir uma solução equilibrada, que proteja o entregador, preserve o acesso do consumidor e mantenha a sustentabilidade de milhares de pequenos negócios. “O delivery só funciona com volume. Se o preço sobe demais, o consumidor sai do jogo. E quando isso acontece, todos perdem”, conclui.
Pesquisas recentes com clientes de delivery reforçam esta noção que o consumidor reage rapidamente ao aumento da taxa de entrega. Uma parcela expressiva afirma que pretende reduzir ou até deixar de pedir comida por aplicativos caso o delivery fique mais caro. Esse comportamento reforça o risco de retração do mercado e ajuda a explicar por que aumentos de custo mal calibrados acabam reduzindo o volume total de pedidos, em vez de melhorar a renda ao longo da cadeia.
A Abrasel destaca ainda que o setor atravessa um momento de fragilidade financeira. Levantamento da entidade em fevereiro aponta piora na situação econômica dos bares e restaurantes no início do ano, com quase um quartos dos estabelecimentos trabalhando em prejuízo. A pesquisa também aponta dificuldades para recompor margens, honrar custos crescentes e manter investimentos. Nesse cenário, qualquer medida que pressione ainda mais o preço final ao consumidor tende a aprofundar a crise e reduzir a atividade.