Saldanha, que tinha a alcunha de “João sem medo”, não era de fugir da raia, aceitou de cara o convite com uma exigência: - ‘carta branca’ para planejar, escalar, comandar a seleção sem interferências. E, acordo fechado, ao primeiro contacto com os microfones nomeou seus 22 atletas escolhidos, ‘as feras do Saldanha’, escalando titulares e reservas: “São esses e só vou mudar em caso de lesões”, falou.
Ele tinha a convicção, como também alguns atletas que viveram o vexame da Copa da Inglaterra, que o motivo do fracasso em 66 fora a indefinição de um time. Assim, no dia da apresentação aos convocados, Saldanha fechou as portas e desafiou o grupo: “Vai ser isso, e quem não estiver satisfeito é só abrir a porta e sair”.
Todos ficaram, aceitaram, confiavam no treinador, que manjava dos hábitos e idiossincrasias dos jogadores, nos gramados e nos vestiários, como também conheciaas ‘mumunhas’, nem sempre éticas, do mundo da bola fora de campo.
Resultado, aseleção fez uma campanha memorável, ganhando todos os jogos das eliminatórias,alguns com sonoras goleadas, a dupla Tostão & Pelé arrebentando.
Em Assunção, véspera do confronto com o Paraguai, um grupo de torcedores ‘melados’ foi pra porta do hotel, onde a seleção estava concentrada, fazer barulho e bagunça pra perturbar o descanso, o sono dos brasileiros. Saldanha retou-se, desceu ao lado de Brito e Carlos Alberto e enfrentou os torcedores, no pau e no grito; tomou a arma de um deles (João tinha arma e atirava bem) e dispersou o bando.
Era o João Sem Medo em ação. Ganhava cada vez mais confiança e admiração dos comandados.
O Brasil classificado, com sobras, veio o tempo dos ‘amistosos’ preparatórios, hora do planejamento e arrumação das malas para a campanha do México. Então aconteceu o que, para muitos, seria inevitável mais cedo ou mais tarde. Alguns jogos ‘cata-níqueis’ nas principais capitais, atuações oscilantes da equipe, e a mídia esportiva começou a pegar no pé de Saldanha, que se mostrava cada dia mais impaciente e agressivo comos repórteres.
Depois da derrota num amistoso em Belo Horizonte, contra o Galo Mineiro do rude treinador Yustrich e do jovem artilheiro Dario (o futuro Dadá Maravilha), o presidente general Médici (amante do futebol e torcedor do Atlético, do Grêmio e do Flamengo) manifestou o desejo de ver Dario no escrete. “Ele escolhe os ministros dele e eu escalo a Seleção”, respondeu na tampa o João, instigado por repórteres.
Yustrick, que era um homão brabo, esculhambou o escrete e o treinador, daí Saldanha decidiu enfrentá-lo, revólver em punho. Ainda bem que não se bateram.
O clima azedou, Saldanha tornou-se o alvo nacional dos ‘cancelamentos’ de então. A própria CBF já não lhe daria mais sustentação. Parte influente da mídia, cartolas submissos aos poderoso de plantão e até o ministro Jarbas Passarinho, pelo quedepois se soube, reuniram-se e tramaram a queda do ‘indesejável comunista’ João Saldanha, “tinha passado dos limites aceitáveis”, justificariam.
Espalhou-se, então,como motivação maior da demissão um possível desentendimento do treinador com
Pelé (o Rei). Os jornais chegaram a estampar que João teria dito que Pelé estava cego (tinha miopia, usava óculos pra ler) e em fim de carreira. ‘Pelé morreu’, até manchetaram. Assim, três meses antes da viagem para o México, Saldanha caiu, calado, e Zagallo, o‘velho lobo’, bicampeão como jogador em 58 e 62, amigo dos atletas e da mídia, um ‘patriota confiável’ foi o escolhido para assumir o escrete, com toda a logística já montada, apoio geral dos cartolas e dos poderes constituídos.
Saldanha X Pelé
Saldanha voltaria aos microfones e letras, seu ofício. Quando o assunto era Pelé, ele desconversava. Pelé ficou magoado com toda aquela história de cegueira e de seu fimd e linha. Nunca se ouviu dele um pio contra Saldanha, o episódio serviu para motivá-lo, daria a resposta em campo. Preparou-se como nunca para vencer a Copa. Só tempos depois o ‘capitão’ Carlos Alberto, que fora homem de confiança de Saldanha (como foi também de Zagallo) e jogou anos ao lado de Pelé no Santos, esclareceu o que teria acontecido, lembrando-se do fato que causou o choque de vaidades entre treinador Saldanha e o atleta Pelé, então e para sempre o melhor do mundo.
Segundo relato do ‘capita’, na véspera de um jogo, Saldanha postou-se no salão, diante de todos os jogadores, explicado com riscos e nomes no quadro negro como otime deveria jogar, mexer-se taticamente em campo, quando, para surpresa geral, Pelé se levantou e questionou Saldanha. O Rei tomou a frente, apagou os traçados do treinador e fez outros dizendo: ‘acho que devemos jogar assim!’.
Os jogadores se entreolharam, perplexos, e Saldanha empalideceu, engoliu a seco. O Brasil venceu, Pelé fez gols, decidiu, mas o clima entre João e Pelé pesou, nunca mais foi o mesmo. Saldanha era muito orgulhoso, balançou e, birrento, chegou a pôr Pelé no banco, num amistoso, tentou justificar, mas... caiu.
As entranhas do futebo
O “Lobo” e o Rei Logo que Zagallo assumiu, ele mesmo contou, Pelé o encarou a sós e disse “você não vai fazer sacanagem comigo!”. Zagallo respondeu “comigo você joga sempre, meu time é você e mais 10”.
O ‘velho Lobo’ não era bobo. Mudou alguns nomes na sua convocação, para agradar uns e outros – inclusive levou Dario, para afagar o general de plantão, mas não o pôs pra jogar - , manteve a estrutura e planejamento feitas por Saldanha, cercou-se de quatro excelentes preparadores físicos com passagem e treinamentos pelos EUA e postos na nossa ESG – Escola Superior de Guerra (Chirol, Parreira, Coutinho e Carlesso) e, o mais importante, soube dialogar, ouvir os atletas mais rodados.
Por isso inovou, arriscou, confiou, trabalhou muito e deu certo. O time titular, base em toda a Copa, tinha do meio para a frente quatro camisas 10 (Pelé, Gérson, Tostão e Rivelino), três deles absolutamente canhotos (Pelé era ambidestro). Ousou com sabedoria, afinal eram os melhores e eles que achassem umjeito de jogar juntos. Rivelino atuou como um falso ponta esquerda, como Tostão foi um falso centroavante.
Os atacantes voltavam para ajudar no meio-campo (ao lado de Gerson, Clodoaldo), para recompor, retomar a bola. Só Jairzinho ficava espetado mais à frente, fechando da direita para o meio, na força, na velocidade, seu poder de finalização. Atrás, puxou o eficiente Piazza, do Cruzeiro, (que era o apoiador titular de Saldanha) para a quarta-zaga, ensejando a entrada do jovem Clodoaldo, do Santos, mais fogoso, incansável.
Melhorava assim não só a marcação como a saída de bola defensiva. E ainda trocou o jovem lateral canhoto Marco Antonio, talentoso porém afoito, pelo gaúcho Everaldo, mais marcador (e do Grêmio, time de Médici).Tais mudanças teriam sido propostas pelos líderes do grupo, os ‘cabeça pensantes’ da equipe (Pelé, Gerson, Carlos Alberto, Tostão, Rivelino, Piazza...). No mais, foco total na conquista, muita dedicação aos treinamentos, renúncias, sacrifícios, até alcançarem o ajuste, o entrosamento, o jeito de jogar diferencia do da equipe.
Muitos escreveram e falaram que, em campo, beiramos a perfeição. Os mexicanos, nas arquibancadas, enfeitiçados com o balanço do samba brasileiro nos gramados, torceram por nós.
A maturidade do Rei
Às vésperas de completar 30 anos, com mais de mil gols na carreira, Pelé não era mais aquele menino fogoso de 1958, na Suécia, coroado ‘Rei’. Continuava forte, veloz ,porém mais amadurecido, mais contido. Simplificava. Tornara-se uma majesta de genial, sim, ainda matreiro, mas de gestos humildes e dono de uma imensa generosidade, fora e dentro de campo.
Pelé faria uma copa irretocável, com gols de cabeça, a seu estilo, outro em matada no peito trocando de pé pra fuzilar, gol em cobrança de falta... E foi autor de passes açucarados, bolas roladas para gols de Jair, Tostão, Rivelino, Carlos Alberto... Além de jogadas incríveis, memoráveis, até hoje mostradas, repetidas, lembradas e revistas com arrepios.
Os gols que não aconteceram
- A tentativa em chute do grande círculo, ainda no campo defensivo, a bola pelo alto percorrendo mais de 50 metros, encobrindo o goleiro Tcheco Vicktor, no jogo de estreia do Brasil. Gérson e Rivelino, que pediam a bola no meio-campo, confessaram-se envergonhados, depois. “Só ele enxergou!”. Foi ele o primeiro a tentar, a fazer aquilo, abrindo a janela para que outros, depois, realizassem.
- Contra a Inglaterra, na partida mais difícil da Copa (1 x 0), além do toque mágico para o gol de Jairzinho, deu a cabeçada para a maior defesa da competição e da carreira do goleiro Banks, que se tornou amigo do Rei. Fois assim: - Jairzinho chegou em velocidade à linha de fundo, pela direita, e alçou do lado oposto; na frente da pequena área, Pelé subiu muito e testou pra baixo, no canto, a bola quicou quase na linha, o goleiro inglês mergulhou e, no reflexo, conseguiu dar um tapa de baixo pra cima na pelota, evitando gol.
“Fiz a maior defesa de minha vida”, dizia. O mundo aplaudiu ajogada inteira.- O drible de corpo do Rei, sem tocar na bola, no goleiro uruguaio Mazurkiewski, que saiu para bloquear na linha da grande área e ficou ‘na rua’; depois finalizando enviesado, a bola raspando o rodapé da trave. Um lance genial que inspiraria Romário.
- Ainda no mesmo jogo contra o Uruguai, o chute emendando de primeira, quase do meio de campo, o tiro de meta cobrado pelo goleiro, que conseguiu evitar o gol. E mais o toque de prima no meio campo desconjuntando a defesa uruguaia, desviando para Tostão, que passava, no lance que resultou no golaço de Jair, entrando peladireita em velocidade e chutando rasteiro e cruzado, desempatando, contra o mesmo Uruguai.- E, já no finalzinho, a bola rolada na entrada da área para a cacetada de Rivelino,definindo a virada (3 x 1). Era a vingança contra o Uruguai que pôs o papai Dondinho a chorar em 1950.-
Como se não bastasse, teve ainda a cotovelada planejada e bem aplicada no defensor uruguaio que distribuía pontapés (o árbitro ainda marcou falta em favor do Brasil, no lance).- E quem esquece a cabeçada, no primeiro gol da final da Copa, contra a Itália? ‘Quando olhei, ele parecia ainda parado no ar’, diria depois Rivelino, autor do cruzamento da esquerda, pelo alto.
Pelé era chamado por todos de ‘Rei’, no jogo, nos treinamentos, no vestiário, no dia adia. Mas não queria, não aceitava e não tinha nenhum privilégio, nada diferenciado dos outros. O mesmo prato, a mesma cama, toalhas, hábitos... Era um Rei simples e solidário.A única diferença dele para todos era a obstinação em vencer. Rivelino conta que, no vestiário, após a vitória e exibição espetacular da estreia contra os Tchecos (os 4 x 1 devirada), todos eufóricos comemorando, então Pelé levantou a voz alertando: “Nãoganhamos nada ainda, temos de melhorar muito, cada jogo é uma batalha, tamo sjuntos”! E arrematou aos berros: “Eu não morri, Pelé está vivo, porra!”. Incendiou amente de todos.
Craques diferenciados
Mas não era só ele, o Rei. Outros também fizeram a diferença.
- Como Jairzinho, o artilheiro da competição, autor de sete gols, que encarnou Mané Garrincha e marcou em todos os jogos, driblando marcadores, varando defensivas, arrancando, carrinhando... Destaque para o golaço dando chapéu no goleiro tcheco Vicktor, depois do lançamento primoroso de Gerson. Um monstro.- Que copa fez Gerson, o canhotinha! Lucidez e liderança em campo, visão de jogo, seus lançamentos longos, precisos, mortais. O maestro da equipe.
Ficou de fora de uns dois jogos sentindo incômodos na coxa (substituído por Paulo Cesar Caju), atuou alguns momentos no sacrifício e ainda fez gol na final contra a Itália.- A absurda inteligência, e entrega do moço Tostão, que foi pro tudo ou nada, atuandode centroavante ‘de mentira’, sem poder cabecear por causa da operação delicada por descolamento de retina num dos olhos. Jogou com bola e sem bola, deslocando-se, abrindo espaços, servindo, fazendo gols, talento puro.
- O grande capitão (o Capita) Carlos Alberto Torres, autor do derradeiro gol na final contra a Itália, liderança respeitada. Exibia elegância no toque, no bote, na saída de jogo, passes perfeitos...
- Mais Rivelino, ‘a patada atômica’, apelido dado pelos mexicanos. O dinâmico e incansável Clodoaldo, o ‘Corró’, quase garoto. O clássico e impecável Piazza,improvisado na quarta-zaga. O discreto e eficiente Everaldo. O goleiro Félix, o ‘Papel’,com defesas fundamentais nas horas mais necessárias.
O zagueirão Brito, tido como omelhor preparo físico da competição. Paulo Cesar Caju, o camisa 12, principal reserva,e o lateral Marco Antonio, que também entrou nalguns jogos... Tínhamos um elencod e craques.
Duas obras-primas- O último gol da Copa, aquele do ‘capita’, fechando o caixão da Itália é tido até hoje como o gol coletivo mais perfeito e bonito de todas as copas. Sete jogadores brasileiros participaram do lance, que começou na defensiva com troca de passes entre Gerson e Tostão, mais de um minuto sem que nenhum italiano tocasse na bola .Clodoaldo recebeu, driblou em sequência quatro adversários e passou a Rivelino, quee stava pela lateral esquerda; Riva logo enfiou para Jairzinho, aberto pela ponta,arrastando a marcação do carrapato Fachetti.
Jair pendeu para o meio e viu Pelé livre nas imediações da meia lua. O Rei dominou e com o rabo de olho percebeu a chegadade Carlos Alberto pela direita, avençando no espaço livre criado por Jairzinho. A bola rolada com perfeição pelo Rei e o tiro certeiro, de primeira, do grande capitão. Dizemque toda aquela movimentação fora combinada no intervalo, no vestiário, num papo entre Pelé e Carlos Alberto.
O gol do título, do Tri, já perto do apito final. Só festa!- A outra ‘obra-prima’ aconteceu no jogo contra a Inglaterra, o mais duro de todos, sem Gérson em campo. Segundo tempo amarrado, 0 x 0, o gol não saía e os ingleses, então campeões do mundo, atacavam, perigavam em bons contragolpes. Tostão contaque percebeu a movimentação de Zagallo, no banco, chamando o centroavante Roberto (do Botafogo) para aquecer.
Entraria, certamente no lugar dele, Tostão. Daí,‘o mineirinho de ouro’ decidiu arriscar sua última e corajosa cartada: recebeu uma bola nas proximidades da área inimiga, pela meia esquerda, e invadiu, desbravou, livrou-se do primeiro marcador no corpo, com uma braçada, enfiou (vejam só!) porentre as pernas do capitão Bobby Moore que chegava na cobertura, girou o corpo e, sem olhar, só de imaginar, cruzou para o lado oposto, a bola descaindo na frente da pequena área para Pelé.
Goleiro e zagueiros atiraram-se na frente do Rei, que dominou a redonda e ameaçou o chute, mas enganou a todos rolando de lado para a chegada de Jairzinho, que fechava da direita para o meio. O chute do artilheiro saiu forte, de cara, indefensável, e o Brasil venceria seu jogo mais difícil, 1 x 0 sobre os‘pimpudos’ ingleses. “Ali, alimentamos a certeza de que poderíamos ser campeões”,confessaria depois Tostão.
Curiosidades- A final, no México, foi disputada por dois bicampeões do mundo, então: a Itália (1934 e 1938) e o Brasil (1958 e 1962). O Brasil sobrou fisicamente, virou e fez três gols no segundo tempo. No Estádio Azteca, Ciudad de México, mais de 107 mil presentes.
- Os italianos vinham de uma desgastante semifinal contra a poderosa Alemanha de Beckenbauer, Müller... um 5 x 4 com sete gols na prorrogação. Os brasileiros sabiam disso e, trocando passes, estrategicamente puseram os italianos na roda, cansando-os.
- Pela primeira vez, na Copa de 70, os árbitros usaram os cartões amarelo e vermelho para advertir e punir infratores, sem precisar de intérpretes para falar com os jogadores. A arbitragem no jogo final foi alemã.- Pela primeira vez, também, nós brasileiros pudemos ver uma copa pela tv, ao vivo, mesmo que ainda em p & b, preto e branco.
- Foram marcados 96 gols em 32 partidas, uma média acima de 3 gols por jogo. A média de público foi de 52.312 pessoas/jogo.
E só voltaríamos a vencer outra Copa, a do Tetra, 23 anos depois, em 94, nos EstadosUnidos
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