Repito o que escrevi ontem de manhã: "a copa é um evento esportivo, que mobiliza paixões, mas não precisa mobilizar paixões negativas, reativas. O que está em jogo hoje não é nem a honra, nem o destino da nação".
Paulo Fábio Dantas , Salvador |
07/07/2026 às 06:36
Com a entrada de Neymar, qual passou a ser a função de Vini Jr?
Foto: Nelson Terme CBF
A Copa continua, mas acabou para a nossa seleção. Fica um enigma que talvez demore para se desfazer. Por que Ancelotti colocou Neymar e desmontou o time pra fazer isso? Que imprudência, ou que insegurança foi essa?
O resultado, em si, não foi um absurdo. Era um jogo sem favorito. Qualquer das duas seleções ganhar seria normal e, apesar da decisão de "dar a bola" ao adversário, o Brasil também teve chance de vencer, no primeiro tempo. O pênalti perdido, outras oportunidades, em número maior do que a Noruega, que também teve chances e até fez um gol, bem anulado.
O que não dá pra considerar normal foi a melança ocorrida a partir dos 20 do segundo tempo e principalmente após a última pausa para hidratação. A impressão é que a partir daí o desentendimento e a desorientação tomaram conta do time. E aí a Noruega simplesmente tomou a bola e ficamos sem ver a cor da dita cuja.
Vou tentar descrever o que vi, imóvel e incrédulo, a ponto da babá de Marina achar que eu estava dormindo. Posso ter visto mal, é claro, mas foi o que me pareceu ser a sequência do vexame.
Até sair do jogo, Rayan estava menos inspirado do que outras vezes, mas fazia quando nada o trabalho de atacar e, principalmente, recompor o lado direito. Martinelli não jogou centralizado para armar jogo e assegurar com Bruno o domínio do meio de campo. Isso me pareceu que seria o melhor possível, desde o jogo contra o Japão. O suposto esquema do técnico era outro, mas até aí tudo bem, ao menos Martinelli fechava bem o lado esquerdo, voltando pra marcar e enquanto ele esteve em campo Vini era acionado de vez em quando. Mesmo não estando num bom dia (ninguém estava, exceto o goleiro e isso é outro mistério), o nosso atacante preocupava o adversário.
O primeiro tempo acabou indefinido, com aquela sensação de que o time poderia dar mais do que deu, mas enfim, segundo um otimismo mínimo, não era nada que não pudesse ser corrigido.
A primeira mudança tinha como dar certo. Endrick no lugar de Mateus Cunha, mantidas todas as demais posições, garantiria uma presença mais agressiva na área, não deixando os discutíveis zagueiros da Noruega à vontade até para irem às compras, como fizeram nos últimos 25 minutos do jogo.
Mas durou pouco. É verdade que Endrick perdeu um gol feito, mas é verdade também que começou a sair algum jogo dali, com Bruno e Martinelli circulando a bola Vini se aproximando. Além disso, Endrick não deu sinal de desistência. Continuou indo pra cima durante os 5 ou 10 minutos entre sua entrada em campo e a de Neymar.
Endrick foi só a primeira vítima, sendo deslocado para a ponta com a saída de Rayan e todos sabemos que não é de Endrick fazer o que Rayan fazia. Perdemos de um só golpe o centro avante e o setor direito e abrimos ali uma das avenidas para o passeio (ou a remada) norueguesa.
Mas o efeito do lado esquerdo foi equivalente, ou pior, porque tirou Vini Jr. do jogo.. Com a entrada de Neymar, ele foi rebaixado da posição de estrela (mesmo que não fosse de tanta grandeza assim), pois além de Rayan, saiu também Martinelli.
Vini passou a receber a missão de recompor. Como ele não é disso e não tem fibra para contrariar o mister, acomodou-se e esperou a bola se oferecer, talvez consolado por não ser o culpado de tanta bagaceira junta. Virou vagalume.
Certo, entrou Danilo Santos mas no lugar errado, porque deveria entrar no de Casemiro. Mantido o "homem de confiança", Danilo entrou num não-lugar e a confiança de todo o time (que já não era essa coca-cola toda) foi para o espaço. A saída posterior de Bruno Guimarães foi só o tiro de misericórdia no próprio "esquema de jogo" que parecia ser uma "convicção" de Ancelotti em sua busca de fazer da nossa seleção a Itália do passado. E a Noruega, que já remava livre à esquerda e à direita, tomou conta de vez do meio-campo.
Não sejamos arrogantes com quem nos venceu. O jogo não se decidiu só por erros do Brasil. A Noruega é uma seleção de nível equivalente ao da nossa e teve méritos significativos. Acima de tudo um conjunto bem treinado, em contraste flagrante com o nosso caso. Se tem uma defesa fraca, possui, por outro lado, um craque maestro no meio campo e um goleador espetacular (desculpem a contaminação pela febre adjetiva que dominou as transmissões dos jogos). São duas coisas que nos faltam, o maestro talvez por escassez de talentos mesmo (não se pode cobrar milagres do treinador), mas a ausência de um goleador de qualidade resultou do processo espúrio que foi a convocação da seleção. Levaram Neymar, ex-craque e semi-atleta, individualista e desagregador e deixaram Pedro no Brasil. Assim como não deram a Estevam a chance de se recuperar para fazer, talvez, com mais maturidade o que Endrick tentou, na falta de um centro-avante propriamente dito.
Aí já saio do jogo de ontem, um leite derramado que foi mais consequência do que causa de um fracasso. É hora de lamber as feridas e cuidar das sequelas de uma sequência de atitudes que levou a seleção a ser um arquipélago de vaidades desprovidas de grandeza moral.
O arremate final do espetáculo de ontem foi a indigna reação do time à derrota. Começou pelo pontapé paraguaio, dado pelo nosso ex-craque no meio campista adversário que estava colocando o nosso no bolso. Continuou com o pênalti convertido a dois minutos do apito final não gerar a atitude instintiva de colocar rapidamente a bola no centro do campo e pressionar os adversários a recomeçarem o jogo. Em vez disso, a cena seguinte foi a troca de provocações do mesmo personagem com o goleiro adversário, como se o desfecho daquele bate-boca fosse mais importante do que um último esforço para alterar o placar do jogo.
Para terminar, o mau exemplo da duplamente indigna, porque omissa, saída de campo do técnico, o principal responsável pela desmoralização. Arrogante - ao não se achar no dever de falar ao público para tentar explicar o que houve - e insolidário, faltando a seu outro dever de agrupar seus comandados para saírem de campo em pé.
As atitudes dos dois protagonistas de ontem equivalem-se, merecem-se, tirando, no meu entendimento, as dúvidas que porventura ainda existissem sobre os motivos da convocação da seleção ter sido o que foi.
Desculpem ter me estendido e com isso ter parecido que dou a tudo isso o valor de uma "questão nacional". Não é verdade.
Repito o que escrevi ontem de manhã: "a copa é um evento esportivo, que mobiliza paixões, mas não precisa mobilizar paixões negativas, reativas. O que está em jogo hoje não é nem a honra, nem o destino da nação".
Mas é importante detalhar os erros cometidos e reconhecer os méritos do adversário. O intuito é ajudar a vacinar (principalmente nossas crianças e jovens) contra essa síndrome que vai, de repente, em 90 a 100 minutos, do ufanismo (que nos incute o desejo de ser "letal" e esmagar) à depressão, que nos leva a querer caçar bruxas e fazer faxinas.
Senso de proporções, essa é a sabedoria perdida que precisa ser recuperada no Brasil, se quisermos ter êxito, seja no futebol ou fora dele. E sempre sabendo que o futebol é importante, mas não é tudo.
Orientação número um, como lição dessa ressaca: localizar, reconhecer e isolar os demagogos. E, sempre preferir saber do que ignorar.