Política

HÁ 40 ANOS NA BAHIA OS SENADORES SÃO ELEITOS EM CHAPAS CASADAS por TF

Historicamente, Os governadores eleitos têm puxado os senadores e os elegem; Jerônimo, por enquanto, está sendo uma exceção.
Tasso Franco , Salvador | 01/05/2026 às 10:36
Roma, Coronel "casados" com ACM Neto; Rui e Wagner com Jerônimo
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 A pesquisa Genial/Quaest divulgada esta semana sobre as intenções de votos na Bahia mostra um cenário que não se concretiza há 40 anos. Ou seja, o pré-candidato ao governo ACM Neto (UB), está com 41%, à frente do seu opositor o governador Jerônimo Rodrigues (PT) com 38%; e os pré-candidatos ao Senado, Rui Costa (PT) e Jaques Wagner (PT) disparados com 24% e 22% respectivamente à frente de João Roma (PL) e Ângelo Coronel (Republicanos) com 9% e 6%.

Vê-se, pois, que se as eleições fossem hoje os eleitos seriam ACM Neto (UB) ao governo e Rui Costa e Jaques Wagner, ambos do PT, portanto adversários políticos. 

  Ora, isso não acontece na Bahia desde a redemocratização (1986) quando houve a primeira eleição pós ditadura militar (1964-1984) e os eleitos foram Waldir Pires (PMDB) governador e Ruy Bacelar (PMDB) e Jutahy Magalhães (PMDB), aliados, ao Senado.

  Nesta eleição de 1986, Waldir enfrentou Josaphat Marinho (PFL/PSD/PTB) candidato do governador João Durval e de ACM (mais de Durval do que de ACM) e os candidatos ao Senado dessa coligação foram Antônio Lomanto Jr (independente com simpatia ao carlismo) e Felix Mendonça, indicado de ACM. Lomanto saiu disparado nas primeiras pesquisas e seguiu à frente até às vésperas do pleito quando foi ultrapassado por Rui Bacelar e depois Jutahy Magalhães, graças a performance de Waldir, o qual subiu muito (75% dos votos) e puxou os candidatos ao Senado.

  Josaphat Marinho que havia sido senador (1963/1971) e era socialista filiado a este partido, o PSB nacional lhe negou legenda para disputar o governo, em 1986, ele então se filiou ao PFL. Já Rui Bacelar, que era fundador do PFL perdeu a legenda na disputa interna com ACM e se filiou ao PMDB. O nome da coligação de Josaphat era Aliança Democrática Progressista e seu candidato a vice foi José Penedo.

  O governo de Waldir, que seria da mudança e esse foi o slogan da campanha, pois, o sentimento de mudança era muito forte contra ACM, foi um fracasso. Praticamente não existiu e ele passou o bastão para o vice Nilo Coelho (PMDB), em 14 de maior de 1989, quando renunciou ao mandato na aventura de ser presidente da República e acabou sendo candidato a vice na chapa de Ulisses Guimarães.

  Nilo não falava a mesma linguagem política de Waldir – é um empresário do agronegócio, riquíssimo, apelidado de “Nilo Boi” – e ao assumir o governo mudou tudo. Houve uma desorganização geral na administração pública e na politica permitindo que ACM, em 1990, se candidatasse a governador e vencesse o pleito para Roberto Santos.

  Nilo, no entanto, foi importante na vitória de Waldir, em 1986, uma vez que era prefeito de Guanambi, eleito em 1982, também presidente da UPB e foi alçado a candidato a vice-governador levando consigo para a coligação Waldir-Nilo prefeitos e lideranças da região Sudoeste do Estado.

  O PT, que em 1986, havia dado apoio critico a chapa de Waldir (recomendava o voto no candidato ao governo, mas, não ao Senado) chegou a considerar lançar um candidato a governador, segundo o presidente do partido, Jorge Almeida, mas, apoiou Waldir.

   ACM foi eleito pelo voto direto, em 1990, no primeiro turno por pouco não acontecendo um segundo turno diante do crescimento da chapa rosa-choque, Lídice, Salete e Beth. ACM eleito puxou com seus votos e elegeu Josaphat Marinho senador. Nesta eleição o PT pela primeira vez lançou um candidato a governador da Bahia, José Sérgio Gabrielli.

  Em 1994, o candidato carlista foi Paulo Souto, eleito. Enfrentou a Jutahy Magalhães Jr (candidato pelo PSDB com apoio do PT) e João Durval (PDT). A eleição foi ao segundo turno entre Paulo Souto x João Durval (PDT) com apoio do PT. 

   Os candidatos ao Senado eleitos foram ACM e Waldeck Ornelas. Nesse pleito houve uma discussão muito forte na eleição de Waldeck que ultrapassou Waldir Pires, no final da contagem, com uma diferença de pouco mais de 3.000 votos. Waldeck foi confirmado senador e exerceu o mandato entre 1995/2002. O candidato do PT ao Senado foi Zezéu Ribeiro. Para pirraçar ACM chamava ele de “Zêzêu”.

  Na eleição de 1998, o candidato carlista seria o deputado Luís Eduardo Magalhães, mas ele morreu no dia 21 de abril de 1998, aos 43 anos de idade. O escolhido por ACM foi César Borges e o vice Otto Alencar. E, ao Senado foi eleito Paulo Souto. Os adversários de Souto nesta eleição foram Daniel Almeida (PCdoB) e Murilo Leite (PMDB).

  Em 2002, elege-se governador Paulo Souto e ACM e César Borges ao Senado. Souto derrotou Jaques Wagner (candidato do PT), Prisco Viana (PMDB) e o folclórico Rogério da Luz. ACM e César Borges derrotaram Waldir Pires e João Durval.

  Na eleição de 2006, o candidato petista Jaques Wagner, usou a mesma estratégia de Waldir Pires, em 1986, e cooptou “carlistas” e aliados para seu lado, entre eles, Otto Alencar (seu candidato a vice) e João Leão, e venceu o pleito. 

  O candidato ao Senado eleito foi João Durval. Wagner chegou a ir no lançamento da candidatura de Antônio Imbassahy, a essa altura um pouco dissidente do “carlismo”, mas acabou carregando João Durval, que havia enfrentado Paulo Souto ao governo, em 1994, e tinha mudado de lado, rompido com o “carlismo”. Durval também havia sido derrotado por ACM Na disputa ao Senado, em 2002.

  Quando falo que Wagner carregou João Durval é no sentido de que a chapa estava casada Wagner e Durval e na leva ele foi eleito, mas, Durval tinha sua base muito forte no interior e isso também ajudou Wagner. Mas, o fundamental para Wagner foram Otto e Leão que trouxeram suas “tropas carlistas dos currais” para o PT.

  Em 2010, deu Wagner de novo no primeiro turno contra o insistente Paulo Souto, a essa altura o “carlismo” semi-morto, órfão, porque ACM morreu em 2007 (ACM Jr filho de ACM o substituiu no Senado para completar o mandato até 2010). Wagner elegeu (modo de dizer) Walter Pinheiro e Lídice da Mata ao Senado. Foi uma reeleição fácil do PT. Wagner obteve quase 64% dos votos; Souto (16%) e Geddel Vieira Lima (15%). 

  Nesta eleição, César Borges, que era senador bem avaliado (1995/2003) saiu na frente e foi atropelado pela força de Wagner. E no decorrer da campanha Pinheiro obteve 3.6 milhões de votos; Lídice 3.3 milhões; e Borges 1.580.000.

  Veio a candidatura de Rui Costa ao governo, em 2014, e o eleito ao Senado foi Otto Alencar. Rui enfrentou Paulo Souto (37%) e Lídice da Mata (6%) e ganhou no primeiro turno com (54%); e Otto Alencar (55%) venceu de Geddel Vieira Lima (34%) e Eliana Calmon (8%).

 Em 2018, repete-se Rui (reeleito com 75% dos votos, a campanha mais fácil do petismo, uma mangaba) enfrentando José Ronaldo e Marcos Mendes; e ao Senado o PT trocou Lídice por Ângelo Coronel (eleito) e Jaques Wagner (eleito), que venceram Jutahy Magalhães Jr e Irmão Lázaro.

  E, em 2022, Jerônimo Rodrigues (PT) foi eleito governador e Otto Alencar (senador). Jerônimo derrotou ACM Neto no segundo turno e Otto a Kaká Leão, este com facilidade. Para o governo do estado foi a eleição mais difícil (pela primeira vez houve segundo turno) e se não fosse a performance de Lula (quase 80% dos votos na Bahia, no segundo turno contra Bolsonaro) Jerônimo poderia não ter sido eleito.  
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  Essa é a história, a realidade dos fatos, foram eleitos nos últimos 40 anos senadores casados eleitoralmente com os governadores eleitos.
 
  Agora, estamos vendo essa mudança (temporão abril 2026) ACM Neto com Rui e Wagner., mas, é bom observar que a campanha propriamente dita ainda não começou e Jerônimo tem uma estrutura politica maior e mais assentada do que ACM Neto, o qual, até agora, não conseguiu desestabilizar os governadores em exercício no plano político. Isso é, trazer gente de lá para cá como fizeram Waldir (1986) e Wagner (2006).

  Por enquanto ACM Neto só trouxe Ângelo Coronel que é, politicamente mais ou menos forte, mas, não desestruturou a base de Jerônimo; e recompôs com João Roma, mas, ainda há duvidas se vai abraçar a candidatura Flávio Bolsonaro a presidente e/ou Ronaldo Caiado; enquanto isso, Jerônimo está bem posicionado com Lula embora Lula não esteja tão forte como em 2022 na Bahia. Os tempos são outros.

  Portanto, tanto, Neto pode se manter no topo como puxar Roma na onda bolsonarista. Não acredito que puxe Coronel diante da grande diferença para Rui Costa, 18%, o que significa, hoje, uma barca consolidada com mais de 1.3000.000 de frente um para o outro. Mudar isso é tarefa improvável, porém, nada em política é impossível.

  Assim como, Jerônimo pode passar ACM e os eleitos ao Senado serem Rui e Wagner. Mas, nesse caso, quem puxará Jerônimo para o alto é Lula/Rui/Wagner e não o inverso. (TF)