A estratégia do petismo baiano em 2026 é a mesma usada em 2022
Tasso Franco , Salvador |
15/06/2026 às 10:22
Lula (80% nos currais da Bahia) e Jerônimo (70%)
Foto: REP
Vamos ao desdobramento do comentário que fizemos intitulado “Candidatos a governador priorizam prefeitos e eleitor é dominado” em que analiso como a política baiana é tratada de cima para baixo, desde priscas eras – de épocas da República Velha passando pelo getulismo/juracisismo, vianismo, carlismo, com o PT sem alterar as estruturas mantendo a mesma pegada. Ou seja, a Bahia é vista como um “curral eleitoral do petismo” e isso se expressa nos resultados eleitorais.
Na última eleição (2022) o presidente Lula da Silva venceu o pleito para Jair Bolsonaro em 415 dos 417 municípios só perdendo em Buerarema – município onde há um conflito antigo entre possíveis indígenas e fazendeiros; e Luís Eduardo Magalhães – polo do agronegócio do Oeste; e Jerônimo foi vitorioso em 364 municípios e ACM Neto em apenas 53. Lula obteve no 2º turno, 72.12% dos votos (6.097.815) e Bolsonaro 27.88% total de 2.357.029 uma diferença de 4.740.786.
Numa eleição polarizada como foi a de 2022, no geral (Brasil) Lula obteve 50.90% dos votos; contra Bolsonaro 49.10% vê-se, pois, a importância que foi a Bahia nesse processo.
O eleito governador, Jerônimo Rodrigues, obteve 52.79% dos votos e ACM Neto 47.21%. Uma eleição apertada com uma diferença de 5.56% com um detalhe (pouco observado, porém, real) de que no primeiro turno Jerônimo obteve 49.45% dos votos; e ACM Neto 40.80% e João Roma – o candidato bolsonarista do PL – 9.08%. Veja, numa análise fria e matemática dos números que, no 2º turno, ACM Neto conseguiu 6.31% dos votos de Roma; e Jerônimo 3.34%. Ora, no fritar dos ovos, Jerônimo abocanhou 3.34% de votos do bolsonarismo (Roma/Jeronimo).
Claro que, quem elegeu Jerônimo foi o petismo com suas forças aliadas (49.45% dos votos), mas, é recomendável observar que, nessa época, embora o petismo (no geral) tentasse ligar ACM Neto a Bolsonaro, Roma era adversário de Neto e conversava com Wagner. Hoje, Neto e Roma estão juntos.
E, na verdade, quem desequilibrou o pleito foram os municípios em que Lula obteve 82.64% (caso de América Dourado exemplo que vale para centenas de outros) e Bolsonaro 13.82% e Jerônimo, embora não tenha se aproximado disso, nesses currais eleitorais sua média de votos foi de 70%.
É essa pegada, observando essa estratégia, que o petismo busca manter em 2026.
Como sabemos, cada eleição tem sua própria história e passados quase 4 anos do pleito de 2022, os candidatos são os mesmos – Lula x Flávio (filho de Bolsonaro) e Jerônimo x ACM Neto. Muda, apenas a relação com o Senado (duas vagas na Câmara Alta) e em 2022 era apenas uma vaga vencida por Otto Alencar.
A Bahia se modificou nesses últimos 4 anos a ponto de mexer em suas estruturas politicas-econômicas e sociais? Não.
Houve alguns avanços nas áreas da educação com a implantação dos colégios em tempo integral; na saúde, com hospitais de base e policlínicas, mas as estruturas da economia e da qualidade de vida continuam as mesmas e os avanços da Bahia até comparados com o Nordeste ficam abaixo de Pernambuco e Ceará. Na pesquisa nacional recente divulgada sobre a qualidade de vida dos 5570 municípios brasileiros a Bahia figura com melhor posição em 823º lugar com Abaíra e há inúmeros municípios de Pernambuco, Sergipe, Ceará e Paraíba e Piauí à frente do nosso estado.
Abaíra é um município pequeno da Chapada Diamantina cuja principal atividade econômica é a produção de Cachaça. Depois de Abaíra o segundo município baiano na lista dos melhores do país/Bahia em qualidade de vida é Valente, na região do Sisal, na posição 1412º.
Não precisa ir muito longe para verificar essa realidade quando se compara as cidades/municípios geminados Juazeiro e Petrolina. São iguais apenas na poética de Francisco Agra e Jorge de Altino quando cantam: “Petrolina, Juazeiro, Juazeiro, Petrolina/Todas duas eu acho uma coisa linda/Eu gosto de Juazeiro e adoro Petrolina”. Todos adoramos, mas, desde a primeira gravação da música (1970), lá se vão 56 anos, Petrolina andou, foi, se desenvolveu; o município se industrializou; e Juazeiro parou no tempo.
As duas cidades irmãs às margens do Rio São Francisco observando-se uma e outra, não só no plano urbanístico, mas em educação, transportes, qualidade de vida, empreendedorismo, tecnologia, Juazeiro parece um bairro pobre de Petrolina.
Essa é a realidade da Bahia estado que ocupa 22º no mapa IPS (Indice de Progresso Social) divulgado recentemente e que mede a qualidade de vida nos territórios (educação, saúde, saneamento, etc) e somos o pior do Nordeste. Há inúmeros municípios da Paraiba, Sergipe, Piaui, Pernambuco e Ceará à nossa frente e temos Camamu como o pior índice do país na posição 5.545 dos 5570 pesquisados. Salvador está na posição 1997 (pior capital para se viver do NE) e a citada Juazeiro na posição 2409.
Eis, portanto, os caminhos que serão trilhados por Lula/Jerônimo, em 2026, que não mudaram suas estruturas, seguem no atraso, salvo alguns investimentos não estruturantes, onde o PT é majoritário com 80%/70% dos votos.
O petismo não tem projeto de desenvolvimento econômico para o estado e o governador Jerônimo anda muito nos municípios, promove muitas entregas de obras, carros de polícia, ambulância, caixas d’águas, tratores, recuperação de estradas, etc, coisas pontuais.
Posso fazer um corte e mostrar como exemplo (serve de modelo outras regiões, salvo a RMS e a RMF), o Território do Sisal (pop estimada 600.000 habitantes app 400.000 eleitores), 20 municípios, qualidade de vida baixa, região (como a maioria do estado) sem relevância econômica, política e cultural tratada pelos governos sem um projeto de desenvolvimento econômico de maneira integrada, nem do Estado, nem do governo federal, nem dos municípios. Ou seja, não há um projeto de integração nem mesmo dos municípios. Isto é, cada qual que resolva suas demandas, o que significa numa análise mais ampla uma perda de oportunidades.
O último projeto integrado foi realizado no governo João Durval, década de 1980, com a abertura da Estrada do Sisal – ligação Serrinha a Monte Santo; na outra ponta, há, em curso, a duplicação da BR-116 Norte entre Santa Bárbara e Teofilândia projeto do governo Federal com mais de uma década de atraso. Há, também, por parte do governo do Estado, a implantação dos Colégios em Tempo Integral (que não dialogam entre si) e a instalação de um Hospital Geral e Maternidade regional, em Serrinha, com previsão de inaugurar no segundo semestre de 2027.
No mais, não conheço nenhum projeto produtivo de porte governamental na região, salvo alguns da iniciativa privada como a mineração do ouro da multinacional canadense Equinox Gold, e o projeto SENAI CIMATEC que foca em transformar o agave (planta do sisal) em uma biorrefinaria de energia e biomassa em parceria com a Shell e a Unicamp, o objetivo é aproveitar 96% da planta para a produção de biocombustíveis, em marcha lenta.
As iniciativas do governo do Estado (e também do governo Federal) são quase todas voltadas para o campo da assistência social – recuperação de estradas, escolas técnicas, entrega de ambulâncias e carros de polícia, mercados, etc – todas de relativa importância, mas que não geram riqueza sustentável no campo do emprego e renda nem emulam a atividade econômica. A agricultura familiar, sim.
Recentemente, o governador do Estado, JR, esteve em Serrinha para um evento de natureza política, um PGP. Dançou, politicou, mas de prático não levou nada para a região. Serrinha tem um centro industrial precisando de infra e de indústrias, mas esse assunto nem se tocou nele e era o mais importante. Inaugurou-se um colégio em tempo integral, mas, fecharam dois deles – o Rubem Nogueira e a Escola Normal. Ou seja, foi uma espécie de troca de 6 por meia dúzia.
Quem dinamiza a região é a iniciativa privada principalmente em Coité, cidade que tem o maior sentimento de empreendedorismo – tanto na indústria, no comércio e em serviço. Hoje, tem até uma escola de medicina em nível superior. E, ao lado de Serrinha, dois centros (ou polos regionais) de clínicas médicas privadas e do comércio atacadista (e também varejista).
A região tem representantes na Assembleia Legislativa, porém, com atuação discretíssima, quase nula. Na bancada federal, mas discreta ainda. E no Senado? Há, em Serrinha, um folclore que diz que o senador Otto Alencar só aparece no município de ano em ano para ir a abertura da vaquejada.
Araci não tem rio, mas toda vez que chove mais forte por lá parte da cidade alaga, exatamente os bairros mais pobres e as famílias sofrem bastante. Recentemente aconteceram duas inundações e a prefeita se paramenta toda e faz apelo ao governo do estado por saneamento. E nada depois acontece de efetivo, até a próxima chuva. É impressionante.
De uma forma geral, a qualidade de vida nas cidades da região do sisal é baixa, um horror. A melhor qualidade de vida está situada em Valente (posição 1412 no Brasil nota 6.3) e depois vem Barrocas (ex-distrito de Serrinha) na posição 1930 com nota 6.2. Seguem: Ichu (2194), Serrinha (3537), Teofilândia (3631), Retirolândia (3975), Lamarão (4299), Queimadas (4490), Coité (4536), Santaluz (4502). Cansanção (4692) Tucano (4597), São Domingos (4685), Araci (4864), Biritingas (4892), Monte Santo (5545).
Pronto: esse é o quadro que vai se repetindo (historicamente) há décadas desde a época de Manoel Novaes. Na última eleição o PT venceu de cabo a rabo para presidente com percentuais entre 63.66% (Coité) a 88.03% (Monte Santo) com média para Lula de 75% a 70% dos votos; e Jerônimo só perdeu em Coité: ACM Neto 50.10% dos votos (21.356) contra 49,90 de Jerônimo (21.271) vencendo nos outros 19 municípios com média de 70%. Recorde em Monte Santo com 77.08% onde a base governista tem um deputado estadual e um prefeito.
O eleitor tem pouco poder de ação individual e depende do coletivo que se estrutura na força dos cabos eleitorais, dos vereadores e prefeitos. E é nessa trilha que o petismo (e aliados) se sustentam, com muita competência. E, ao que tudo indica, vai manter a pegada em 2026, salvo pequenas alterações como a questão da segurança pública que, se até 2022, era menos relevante nos grotões, agora, passa a ter um valor maior porque a violência chegou também as áreas rurais.
Mas, por outro lado, há uma dificuldade enorme de ACM Neto de levar sua mensagem a esses grotões, uma vez que os agentes interlocutores desse processo ainda são os cabos eleitorais, os vereadores e os prefeitos e a maioria deles está com Lula/Jerônimo. E o miudinho está sendo feito, convênios, mais caixas d’água, mais assistência social, etc, e isso é o que mais vale.
Em nossa opinião, a dupla Lula/Jerônimo segue majoritária na preferência do eleitorado baiano. Mas, é bom lembrar, a eleição ainda é em outubro e Lula, hoje, também passou a ser vidraça (em 2022 era só estilingue) e Jerônimo idem, embora em menor grau, porque o petismo baiano em 2022 também já era vidraça, mas menos embaçada do que atualmente. (TF)