Política

CRISE MIGRATÓRIA AFRICANOS EM CEUTA SACODE A POLITICA NACIONAL ESPANHA

Crise vem se arrastando há 15 dias e a Espanha ainda não encontrou uma solução para os invasores
Tasso Franco , Blbao | 16/08/2026 às 05:23
Milhares de africanos fogem de Marrocos para tentar entrar na Espanha
Foto: EL FARO
   A incerteza tomou conta de Ceuta já parcialmente ocupada por centenas de marroquinos migrantes. A cidade virou um caos e ontem numa ação conjunta do governo de Marrocos teria impedido que acontecesse uma nova invasão de milhares de marroquinos e africanos da Africa subsaariana. 

   Colunista do El Pais, diz que em Ceuta, conhecida como a cidade das quatro culturas, cabem mil cidades em uma só. No bairro de El Príncipe, ao meio-dia desta sexta-feira, dezenas de meninas e jovens migrantes foram levadas para um prédio industrial recém-reformado, destinado a abrigá-las após relatarem ameaças de violência sexual.

   O governo espanhol ainda não encontrou uma solução para abrigar os marroquinos que já invadiram a cidade e as praias de Ceuta numa cirse que já se arrasta há 15 dias.

  EL FARO ANALISA A SITUAÇÃO

   Ceuta atravessa um de seus momentos mais sombrios, depois que o Marrocos desferiu um golpe contra a Espanha à custa de nossa cidade, permanecendo de braços cruzados enquanto milhares de seus cidadãos contornavam o quebra-mar de Tarajal.

Foram 48 horas de pura loucura — e de morte. A Espanha confirmou 83 vítimas fatais. O Marrocos não divulgou uma contagem de seus próprios cidadãos que se afogaram ou foram esmagados pela multidão. Por enquanto, a ONG Caminando Fronteras lançou luz sobre a situação: o número de mortos ultrapassa 140.

Os acontecimentos de 30 e 31 de julho revelaram um país que recorreu a uma chantagem descarada na fronteira, negligenciou seu dever de controle e manipulou sua própria sociedade — uma sociedade cuja juventude anseia por mudanças, expressa abertamente sua insatisfação e aspira impulsionar um movimento que traga oportunidades e um futuro para todos dentro do próprio país.

A Espanha não proferiu uma única palavra de protesto. Todos os seus ministros elogiaram o papel de seu parceiro marroquino. Eles continuam a negar qualquer conhecimento prévio do desastre iminente que se transformou em tragédia no quebra-mar de Tarajal, apesar dos relatos diários que descreviam a situação que se avolumava: a total falta de vigilância nas praias e a chegada de veículos lotados de jovens vindos do sul.

A campanha de marketing

Entre 30 de junho e 15 de agosto, houve apenas uma mudança — uma mudança puramente de marketing. Durante dias, o Marrocos vinha exibindo força perto da fronteira de Ceuta, demonstrando sua capacidade de responder a uma ameaça de mobilização em massa; ao fazer isso, buscava apresentar os eventos de Tarajal como algo excepcional, inevitável e imprevisto.

Essa é a mesma narrativa que a Espanha repetiu *ad nauseam* — uma narrativa que entra em conflito com a realidade documentada e com os alertas emitidos pelos serviços de inteligência. Qualquer pessoa familiarizada com o funcionamento do país sob o governo de Mohammed VI sabe que é impossível que nada se soubesse sobre o que estava sendo presenciado diariamente.

Em 15 de agosto, o Marrocos não permitiu que seus cidadãos se lançassem ao mar, enviando uma mensagem clara ao mundo: o país é capaz de isolar sua zona de fronteira para evitar colocar seu próprio povo em risco. Instalou cercas de arame com lâminas, militarizou toda a área fronteiriça e ergueu estruturas de segurança ao longo da fronteira...

Buscou reforçar o argumento de que a tragédia de julho fora algo que sequer havia previsto. É uma teoria impossível de sustentar tratando-se de um país que sabe tudo sobre todos e possui vastas redes de coleta de informações — redes que não falham, especialmente em questões relacionadas não apenas às relações com a Espanha, mas especificamente a Ceuta.
Um jogo disputado com cartas vencedoras — e com trapaça
Em 15 de agosto, o Marrocos jogou suas cartas conhecendo-as de antemão e tendo em mãos as vencedoras. Era um jogo de cartas marcadas.

Não foram seus próprios cidadãos que se lançaram ao mar, mas as centenas de subsaarianos que buscavam entrar em Ceuta forneceram o pretexto perfeito para encenar uma manobra de reforço da fronteira que beneficiaria a Europa, posicionando assim o país como um "gendarme" indispensável.

Em 15 de agosto, o Marrocos apostou em dois cavalos vencedores: projetou a imagem de que sua própria população estava sob controle e, simultaneamente, apresentou-se como um parceiro essencial para a segurança das fronteiras — especificamente no que diz respeito à vigilância de uma população subsaariana cujo objetivo final é chegar à Europa.

Pai protetor de seu povo, pai protetor da Europa. Essa não é uma imagem nova; muito pelo contrário. O Marrocos agiu da mesma forma em setembro de 2024.

Sem investigações e uma cidade sob bloqueio

Há algumas semanas, o Observatório do Norte para os Direitos Humanos no Marrocos acertou em cheio ao condenar qualquer possível uso da migração irregular como ferramenta política, diplomática ou de segurança. Eles rejeitaram "categoricamente" a exploração do desespero sentido por alguns jovens marroquinos e exigiram uma investigação independente para identificar quem lançou, disseminou ou facilitou as convocações para a ação na internet, bem como para determinar eventuais responsabilidades institucionais, administrativas ou relacionadas à segurança.

Ninguém anunciou uma investigação, nem órgãos europeus solicitaram uma análise do ocorrido ou um inquérito sobre quem é responsável por essa tragédia — que supera em muito, em escala e gravidade, os eventos de maio de 2021.

Há mais de 100 mortos, perguntas demais sem resposta e uma cidade espanhola sob bloqueio que teve de suportar declarações de autoridades marroquinas desafiando sua integridade territorial — tudo isso acompanhado por uma surpreendente ausência de declarações do governo nacional que simplesmente chamassem as coisas pelos seus nomes. Ceuta nunca mais será a mesma depois de 30 de julho; esse pode muito bem ser o maior dano causado pela política de chantagem do Marrocos e pela fraqueza de um governo que não reagiu nem quando nem como deveria. O desastre em termos de recursos, gastos ou danos estruturais jamais será tão grave quanto o impacto emocional e psicológico.