Colunistas / Literatura
Rosa de Lima

ROSA DE LIMA COMENTA “SANTA CASA DE MISERICÓRDIA”, DE ANTONIO RISÉRIO

Um painel didático e com escrita leve sobre a Santa Casa de Misericórdia da Bahia
01/03/2025 às 13:22
   No final do ano passado a Santa Casa de Misericórdia da Bahia - a mais antiga instituição de assistência social e religiosa do país - fundada pelo 1º governador Geral do Brasil, Thomé de Souza, em 1549, na cidade do Salvador, reabriu o Museu da Misericórdia no centro histórico da capital baiana e, na mesma ocasião, lançou para o público visitante o livro "Santa Casa de Misericórdia da Bahia - quando palavra é ação", texto de Antonio Risério, fotos de Fábio Knool, no formato livro de arte 30cmx20cm, capa dura, o que pode ser adquirido pela modesta quantia de R$120,00 na loja do museu.

   Digo modesta quantia porque esse é o preço de um livro no formato tradicional 14cmx23cm com 400 páginas, capa dura, numa livraria. E o livro produzido por Risério, o qual dispensa comentários pela qualidade de sua escrita, ele, que consideramos pluma cuidadosa, antropólogo que tem várias publicações sobre a Bahia e destacarei, entre elas, "Uma história da Cidade da Bahia" (Editora Versal, RJ, 2004) neste novo trabalho há dezenas de fotos primorosas de Knoll impressas em policromia o que se configura como um livro de arte.

   Evidente que não se trata de um livro com minúcias da história e atuações detalhadas da Santa Casa ao longo desses 4 séculos e Risério cita os trabalhos de Paulo Segundo e de Nelson Cadena anotando algumas das passagens da instituição e que são mais aprofundados, para quem assim desejar algo mais detalhado. 

   O que o autor nos oferece é um texto leve, quase didático, apropriadamente classificado de "quando palavra é ação" mostrando traços e pontos básicos da vida da instituição desde os primórdios aos dias atuais o que permite aos leitores terem uma ideia da importância da Santa Casa e do seu desempenho na defesa dos desemparados.

   E isso foi estabelecido no conjunto das catorze “obras” (valores) da misericórdia que regem a práxis da Santa Casa metade delas provindas diretamente ‘das palavras de Cristo, acrescidas de princípios relativos ao cativeiro e ao enterro dos mortos’.

   Citemo-las copiando Risério: - São as obras corporais, tratar dos enfermos, visitar os presos, vestir os nus, alimentar os famintos, acolher os desabrigados, libertar os cativos, sepultar os mortos () E as ações espirituais: ensinar aos ignorantes, aconselhar, punir compreensivamente os faltosos, consolar os infelizes, perdoar injúrias, cultivar a tolerância diante dos defeitos do próximo, orar a Deus pelos vivos e mortos. 

  São, portanto, esses as virtudes que têm guiado a Santa Casa ao longo dos séculos evidentemente com as mudanças de técnicas, de procedimentos mais atuais, do uso das novas tecnologias e assim por diante. 

   As práticas utilizadas pelo inicial Hospital de Nossa Senhora das Candeias - tratado pela população como o Hospital da Caridade - eram diferenciadas das práticas realizadas, hoje, pelo Hospital Santa Izabel já disseminando a robótica em cirurgias e também em exames por imagens. 

   Porém, nada mudou em sua filosofia do acolhimento, do amor ao próximo, perante os princípios estabelecidos pela fundadora da instituição, em Portugal, a rainha Leonor de Portugal ou Leonor de Avis, irmã de dom Manuel, o Venturoso, em 1498. 

   Na Bahia, a Santa Casa nasceu com a cidade do Salvador e Risério comenta: “Parece que não foram poucas as discussões sobre o assunto. Conta-se que Thomé de Souza foi dissuadido de construir a cidade na colina do Bonfim – e que acabou aceitando as argumentações de Diogo Caramuru, que defendia a sua localização onde de fato ela foi implantada. () a cidade se compreendia entre o começo da Misericórdia, na praça do Palácio, e o Largo do Teatro, onde o terreno começou a descer, no extremo sul (atual praça Castro Alves) () nesta cidade que nascia foi também construído um hospital e para administrá-lo – uma vez organizada a Santa Casa – Thomé de Souza delegando a administração do hospital à instituição () Um dos primeiros hospitais do Brasil, batizado como Hospital Nossa Senhora das Candeias, que passou a ser tratado pela população como o Hospital da Caridade.

   E assim nasce e vai trilhar a instituição com enormes dificuldades a ajuda de doações e o incremento dado pelo 3º governador Geral do Brasil, Mem de Sá, a constituição nem sempre paritária do corpo de irmãos – nobre e plebeus – a ascensão dos provedores desde o primeiro deles Muniz Barreto casado com uma das filhas de Diogo Alvares (Caramuru) e Catharina Paraguaçu, do próprio governador Mem de Sé; do senhor de engenhos e fundador de Sergipe,  Cristóvão de Barros, numa trajetória de altos e baixos ao longo dos séculos.

   Nesse longo caminho estão inseridas algumas ações transformadoras, o contexto escravista, a questão racial, a concepção dos cemitérios fora dos templos religiosos, enfim, uma instituição que esteve presente em todos os acontecimentos da história da cidade, desde a fundação, passando pela invasão holandesa de 1624, as mudanças dos regimes políticos nacionais o Brasil deixando de ser colônia de Portugal para ser Império; de do Império a República, os golpes de estado da República até os dias atuais.

   Como essa instituição conseguiu sobreviver a todas essas turbulências próprias da história e Salvador foi palco de revoltas como a Sabinada, Malês, Conjuração Bahiana, lutas pela independência da Bahia (1822/1823) sem perder as suas forças política, econômica, religiosa e espiritual sobrevivendo até os dias atuais, atuante, viva, dinâmica. 

   Não se trata de uma instituição de fachada como outras que existem no Brasil e vivem com o pires em mãos procurando verbas governamentais. Nada disso. A Santa Casa tem organização própria, salutar, e isso se deve aos princípios que nortearam a instituição desde a rainha Leonor.

   Não fosse isso já teria sucumbido. Lembra, em parte, ou se assemelha, em exemplo singular com a Igreja Católica que tem mais de 2000 anos e está ai potente. Se a igreja tem dogmas, a Santa Casa tem normas quase como as da Regra de São Bento, num sentido mais amplo e não apenas estritamente religioso, conventual, para dentro. É uma Instituição que tem os olhos para a sociedade e em benefício dela. É isso que faz com que ela fique de pé. E, claro, uma instituição tão grande tem que ter administradores competentes e integrados a essa filosofia. E, veja que pioneirismo, uma mulher Liselotte (Lise) Weckerle, uma descendente de alemã, chegou a função de provedora num “clube” que era exclusivo de homens.

   O livro assinado por Risério contém informações sobre o museu restaurado e ampliado, o acervo, o barroco, as obras da arte da Escola Baiana de Pintura, a antiga botica – precursora na Bahia do que se chama “farmácias de manipulação”, o Cerimonial Rainha Leonor (Pupileira) a ação social no Bairro da Paz (antiga Invasão das Malvinas) com a implantação de vários Centro de Educação Infantil (CEIS), o Hospital Santa Izabel, a medicina tecnológica, a Biblioteca Jorge Calmon e outros projetos.

   Um exemplar de arte, bom gosto, informações, prazer, conhecimento, algo para se ter em casa e se colocar as mãos e aos olhos para sempre se está folhando.