Nesse período com a construção das avenidas de vale, Paralela, Shopping Iguatemi, Polo de Camaçari a cidade volta-se para a região Norte
As denominações e os casos de tortura, mortes e outros do periodo são tenebrosos e ainda hoje as devidas punições aos infratores não aconteceram.
Do ponto de vista do urbanismo e da pobreza na cidade do Salvador isso foi irrelevante porque a pobreza, como sempre, não tem o devido conhecimento dos fatos, instrução, e foi levando a vida como pode. A classe média - sobretudo a estudantil - reagiu e muito e daí emergiram alguns politicos que se tornaram importantes na história da Bahia.
Salvador, a cidade, não parava de inchar e de se encher de gente que vinha do interior fugindo das secas, de jovens da classe média em busca da formação universitária (em 1964, a UFBA era a única gratuita; e existia a UCSAL, da igreja católica, paga) e de pessoas que vieram para o trabalho na abertura das avenidas de Vale, na infra da RMS e dos Polos industriais de Simões Filho, Candeias (Petrobras) de Camaçari.
Desde então a Bahia teve os seguintes governadores: Antonio Lomanto Jr (eleito pelo voto em 1962 foi mantido no cargo aos trancos e barrancos); e os nomeados pelos militares Luis Viana Filho (1967-1971); Antonio Carlos Magalhães (1971-1974); Roberto Santos (1975-1979); ACM (1980-1983); e 13 prefeitos: Virgildásio Sena (eleito em 1962 e cassado em 1964), Antonio Casaes, Nelson de Souza (64 a 67), Jolival Pires Rebouças; ACM (1967/abril 1970), Clériston Andrade (1970 março de 1975), Jorge Hage (1975 março de 1977), Raimundo Urbano, Fernando Magalhães (68/79), David Mendes Pereira, Edvaldo Brito (ago 78 a março 79): Mário Kértesz 79 a nov de 1981) e Renan Baleeiro (1981/1983).
Evidentemente que houve uma descontinuidade administrativa enorme parecida com aquela entre 1930 a 1947 o periodo getulista.
Desse caldo de cultura sobreviveram, politicamente, ACM que se elegeu governador pelo voto direto em 1990 e teve longa carreira politica; MK eleito prefeito pelo voto direto (1984) e em menor escala Jorge Hage e Fernando Wilson Magalhães (deputados) e Edvaldo Brito (vereador).
Vale observar, no entanto, que nesse periodo da ditadura militar Salvador iria experimentar uma mudança urbanística transformada com a implantação do Plano Mário Leal Ferreira e abertura das avenidas de vale; e a implantação do Pólo Petroquimico de Camaçari que mudaria a configuração da economia do estado sepultando a era do cacau e inserindo a Bahia na moderna industrialiação, no que existia de vanguarda.
E com sua implantação em Camaçari a 20 km da capital os reflexos maiores se deram em Salvador, local que tinha a mão de obra mais especializada, embora também necessitasse de técnicos de outros estado que chegaram em profusáo (nessa onda veio o carioca Jaques Wagner) e moravam em Salvador.
Imaginem vocês o reboliço que foi na cidade surgindo no decorrer dos anos 1970 a Avenida Luis Vianna (Paralela), o deslocamento do comércio mais glamuroso do centro para o Shopping Iguatemi, a implantação do Centro Administrativo da Bahia (CAB), uso mais intenso do automóvel, tudo puxando para a linha Norte o que acabou, também, incrementando o litoral Norte a essa altura Lauro de Freitas (emancipado em 1962) e os loteamentos de vereaneio em Camaçari litoral.
Foi uma loucura total. Mas, diga-se, dentro do nosso foco de analisar a pobreza, a massa negro-mestiça (70% da população), seguia fora desse "boom" salvo em serviços secundários na construção civil, no Pólo, no CAB e no Comércio porque não estava qualificada para ocupar os melhores empregos, não tinha a minima capacidade empreendedora e não foi amparada.
Se o problema já era antigo, secular, já havia completado mais de 400 anos nessa pisada, só fez se agravar e os pobres abriram novos guetos daí surgindo o maior deles, Malvinas, no eixão da Paralela, e nas suas proximidades via baixada da Gal Costa, entorno da Estrada Velha do Aeroporto, áreas próximas do lixão do atual Barradão (estádio construido noutra época mais adiante, no governo João Durval (1983-1987), a ocupação do miolo no entorno da Mata Escura e do Cabula, o Pernambués e assim por diante.
E também surgem os afavelamentos em Lauro de Freitas. Candeias e Camaçari, as glebas, e o percentual de habitantes da RMS que girava em 9% da população do estado pulou para quase 20% (hoje, 35% da poluação baiana mora na RMS).
O estado já tinha uma estrutura em Secretária do Planejamento, o Plandurb estava em andamento, mas era impossível a qualquer gestor enfrentar uma parada dessa natureza porque, mesmo se quisessem seria um investimento astronômico e não havia dinheiro para isso, nem vontade politica.
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Vamos a um exemplo: Eu (e centenas de outros jovens da classe média do interior) somos retirantes dessa época vindos de Serrinha, Santo Antonio de Jeus, Cachoeira, Jequié, Itaberaba, Bonfim, etc, etc, para a capital (eu, de Serrinha, 1963), para fazer o científico e/ou clássico e ingressar numa faculdade uma vez que no interior não havia faculdades e poucos municípios tinham o clássico, salvo escolas normais.
Não fomos parar nos guetos da periferia e sim nos guetos das pensões do Bangala, Paraiso, Mouraria, Av Ste, Nova de São Bento, Barroquinha, etc. Nossos status decariam da classe média alta para classe média baixa, pois, era dureza morar numa pensão com 20/30 estudantes, um banheiro, um sanitária, e só café da manhã. Solução: marmita e aimpim com ovos.
Fiquei nessa pisada 4 anos até entrar na Faculdade de Filosofia da UFBA, em Nazaré, eu e centenas de interioranas, quando melhorei meu status e comecei a trabalhar no jornalismo, em 1968, e colegas em outras atividades - bancos, empresas de contabilidade, etc - e fui morar com outros 3 amigos num flat da Rua do Paraiso, o Balança mas não cai, ainda em construção e sem portaria, mas foi um avanço.
O importante a destacar é que, quando entrei na FAFIUFBA (jornalismo era um curso dessa faculdade) havia muitas outos cursos - ciências sociais, história, geografia, etc - cadê os PPPs (Pretos, Pobres e da Periferia)? Não estavam. E quando ingressei no Jornal da Bahia, em 1968, também não estavam.
E seguimos nesse passo do compasso avançando (eu comprei um apartamento financiado no Banco Econômico já nos anos 1970 no Chame-Chame - até meu pai se assustou - com o dinheiro do jornalismo já trabalhando em dois lugares e me casando. E quando cheguei no Edf Beta (2 quartos, 60 apartamentos) e havia dois outros prédios Alfa e Gama, todos eramos da classe média e alguns moradores trabalhavam na Petrobras e na Petroquimica.
Essa é a questão crucial e que ningém resolve: Como qualificar essa massa populacional negro-mestiça de baixa renda, hoje, estimada em 1.700.000 para ter uma vida melhor?