Cultura

ROSA DE LIMA COMENTA 2030 TENDÊNCIAS DE HOJE E DO FUTURO,MAURO GUILLÉN

Guillén aborda as mudanças que estão ocorrendo nas gerações e cita o escritor John Passos, o qual conceituou que “a criação de uma visão do mundo é obra de uma geração e não de um indivíduo”
Rosa de Lima ,  Salvador | 02/05/2026 às 10:30
2030
Foto: BJÁ

  Normalmente não aprecio analisar livros em que os autores se dizem especialistas de alguma coisa – quase sempre com opiniões furadas – sobre o que vai acontecer no futuro. Hoje, diante das novas tecnologias da internet, da IA, da robótica, dos drones, da nanomedicina, etc, as mudanças estão acontecendo de forma tão rápida que ficam frágeis as possíveis previsões, quase sempre erradas ou fora do contexto. Ainda assim, essas publicações proliferam porque as pessoas estão ansiosas em querer saber o que vai acontecer anos mais adiante, muita gente na atualidade está perdendo seus empregos ou mudando de profissões diante dessa avalanche da IA.

 Considerei, no entanto, o livro de Mauro F. Guilén 2030 – como as maiores tendências de hoje vão colidir com o futuro de todas as coisas e remodela-las (EDITORA ALTA CULT, 2021, RJ, tradução Camila Paduan, capa Larissa lima, 271 páginas, R$55,00 portal Amazon) pertinente de ser analisado porque o autor, professor da Wharton School,  Filaladélfia, EUA, sociólogo em Yale, EUA, economista de negócios na Espanha, onde nasceu, tem um marco temporal que é 2030, portanto, algo que estamos praticamente presenciando. Se o título fosse 2050, por exemplo, seria inviável qualquer análise. Já 2030 em que estamos vendo as mudanças, tem sentido.

   Claro que Guillén, por morar e circular nos Estados Unidos nos círculos acadêmicos de ponta e nos arredores das empresas com atuações mundiais experimenta mais de perto essas vivências o que está na linha de frente e, nós, que moramos no Brasil e no Nordeste - região mais atrasada do país - percebemos muitas dessas mudanças e estamos a enfrentar esses problemas, porém, uma grande parte da população – a maioria – desconhece e ainda vive na convivência das novas tecnologias com as velhas. E até sobrevivendo só com o uso das velhas tecnologias.

  O autor busca no seu livro ser o mais factual possível e comenta, por exemplo, o que chama de “seca” populacional e o baby boom africano” considerando que o sul da Ásia e a África Subsaariana disputarão o título das regiões mais populosas do mundo e o centro de gravidade da economia mundial tende a sofrer alterações. Além disso, diz o autor, “menos bebês na maior parte do mundo significa que estamos marchando gradualmente em direção a uma população que envelhece rapidamente () E, embora as cidades ocupem 1% da superfície terrestre mundial, elas abrigam 55% da população e representam 80% de energia e da emissão de carbono”.

   Guillén situa que é preciso analisar todas essas variáveis com menos bebês, novas gerações de pessoas, novas classes média, mulheres mais ricas, estilos de vida urbanos, disrupção tecnológica, economia de compartilhamento, criptomoedas e outro mundo novo se apresenta onde “o envelhecimento da população está se generalizando nos Estados Unidos e na Europa Ocidental enquanto as gerações mais jovens estão impulsionando a ascensão da classe média na maioria dos mercados emergentes com um tipo de consumidor diferenciado do que se conhece atualmente”.

  Cita, por exemplo, que o “desequilíbrio do gênero chinês também alterou o consumo na nova economia digital. Considere quanto dinheiro as pessoas gastam em serviços de namoro digital de vários tipos. As plataformas de namoro têm, atualmente, centenas de milhões de clientes em todo mundo, que gastam um total de cerca de US$5 bilhões por ano. E há diferença nos padrões de consumo de um país para o outro, de um continente para outro, e, na China, 85% dos gastos destinam-se aos serviços de “matchmaking” (casamentos) enquanto na Europa isso corresponde a 40%”.

  O que o autor evidencia valendo para todos os leitores é que esse tipo de produto e de consumo não existia na intensidade e na dimensão atual, em tempos idos, não muito distantes. Ou seja, isso não havia na virada do século XX, que é recente, e a tendência é se acentuar. Tanto a difusão das informações ficou mais ágil e com maior alcance, como venda de produtos via internet aumentou estupidamente e o mundo vai se configurando nessa onda. Ora, se a África se moderniza e melhora a sua economia vai criar uma classe média que não possuía e que se tornará consumidora de produtos não só da África, mas de outros países.

  E o mercado também se mexe. Se uma cidade africana de grande porte passa a ter um padrão de vida e consumo de sua população sofisticadas, as empresas se deslocam para explorar esse mercado com consumo de produtos de beleza, de grifes, etc, tanto fisicamente como através das suas plataformas digitais. Segundo o autor, “A África está prestes a testemunhar uma dupla revolução agrícola e industrial semelhante a que aconteceu na Europa, nas Américas e no Leste da Ásia no século passado.

 Guillén aborda as mudanças que estão ocorrendo nas gerações e cita o escritor John Passos, o qual conceituou que “a criação de uma visão do mundo é obra de uma geração e não de um indivíduo”, porém, fez a ressalva de que “cada um de nós para o bem ou para o mal, adiciona nosso tijolo ao edifício”.

  O Sistema de Reserva Federal dos Estados Unidos indica que a Geração Silenciosa (nascidos entre 1926 e 1946) detém 1/3 da quantidade de riqueza que os Boomers (nascidos depois da II Guerra Mundial 1945); mais que o dobro da Geração X (nascidos entre 1965-1981) e 23 vezes a dos Millennials (1981-1996). E as empresas e os marketeiros estão investindo em campanhas para o que chamam, popularmente, de grisalhos. Esse grupo de mais velhos (homens e mulheres) tem algo em torno de 15 trilhões de dólares em movimento.

  Na China, por exemplo 54 mil pessoas por dia comemoram seu 60º aniversário. Nos Estados Unidos são 12 mil. No mundo 121 mil. Em 2030, o número de pessoas nessa faixa 60 anos acima será de 1.4 bilhão, quase 20% da população global. Países mais desenvolvimentos e com maior qualidade de vida, o Japão e a Alemanha terão 38% e 34% de velhos. Mas, não são velhos inválidos e sim ativos, consumidores, e esse “mercado grisalho” só tende a crescer e exigir produtos diferenciados com bolsa de compras gorda estimado em 20 trilhões de dólares, em 2030, no planeta.

  Lembro que meu pai, já velho (80 anos) na década de 1990 tinha como maior inovação em casa o uso de fitas de cinema em vídeos com aquelas capas bonitas; hoje, entrei na faixa dos 80 (2025) e isso não existe mais e nos apegamos a Netflix para assistir filmes e séries.

  Ainda falando sobre meu pai, quando ele fez 80 anos deixou de dirigir; eu renovei minha carteira de motorista aos 81 e os veículos hoje têm GPS e câmbio automático; e posso chamar à minha porta um veiculo via Uber com motoristas em minutos, coisa que na época dele não existia.

  Vocês percebem como ocorrem essas mudanças e há uma intensa oferta de produtos no setor de saúde e boa forma – academias, estúdios, yoga, etc, etc – e já existem e proliferam academias só para idosos.

  Guillén situa que a evolução da “tecnologia muda tudo” e certamente é verdadeiro quando se trata de envelhecimento. “Para começar os avanços nos campos da medicina, nutrição, biotecnologia, estão ajudando as pessoas a aproveitar a vida por um longo período de tempo. Em 2030, um idosos de 70 anos viverá como uma pessoa de 50 anos vive hoje”.

   Sobre as cidades e o urbanismo – pontos considerados mais polêmicos – pois estão em ascensão, o que significa dizer novo ciclo de construção, poluição e emissão de gases. Em 2017, havia 29 cidades com mais de 10 milhões de habitantes e em 2030 elas serão 43, das quais, 14 terão mais de 20 milhões de pessoas, o que vai mexer na configuração da pobreza/riqueza urbana e exacerbar as desigualdades.

  Como enfrentar, resolver ou minimizar esse efeito? Não existe uma lógica, nem uma regra para conter esse efeito migratório que é estimado, na atualidade, uma vez que a população em todas as cidades mundiais cresce 1.5 milhão de pessoas a cada semana. Ou seja, migração do campo ou áreas adjacentes às regiões metropolitanas para as cidades. E, é claro, no meio disso, ou entre as pessoas terão aquelas que vão ascender socialmente e passam a ser consumidoras de produtos que antes nem conheciam.

   Há inúmeros outros fatores a serem considerados como o fenômeno do “sedentarismo urbano”, a fome, o meio ambiente, a educação, etc. São muitas as variáveis. Em 2017, cita o autor, havia “mais pessoas no mundo afetada pela fome” - o que em números absolutos significava 821 milhões de almas – do que pela obesidade – 650 milhões.  O autor cita que a obesidade atinge, na atualidade 1.9 bilhão de adultos – acima do peso – e 650 milhões de obesos. O que representa ¼ da população.

  Como resolver essa questão? Não há uma fórmula salvo o controle da educação alimentar desde as crianças, porém, a indústria alimentícia a cada dia lança mais produtos no mercado considerados atrativos e apetitosos, porém, a base de frituras e enlatados, sorvetes e guloseimas, que só faz aumentam a massa corporal. E, há, no mundo, ao menor 42 milhões de crianças em idade pré-escolar acima do peso.

  Outras questões muito sérias estão relacionadas a água e a energia. Os humanos não sobrevivem sem esses dois elementos fundamentais e embora 2/3 da superfície da terra sejam cobertos por água, 97% dela não é potável, e com o crescimento das cidades – especialmente as metrópoles com mais de 20 milhões de habitantes cada – levar água as residências exige imensos investimentos e controle, racionamento, como já acontece em muitas cidades da Índia, inclusive em Nova Delhi.

  Da mesma maneira existe o abastecimento desses locais com energia, das áreas industrias e do agronegócio. Estima-se que só na agricultura urbana – irrigada e com novas tech – existem 800 milhões de pessoas envolvidas nesse processo e o vai e vem dessas mercadorias aos consumidores, etc, exige uma logística de transporte e energia.

   O livro de Guillén é bem interessante, uma complementação dos alertas que veem sendo dadas todos os dias pela mídia e pelas organizações mundiais de saúde e meio ambiente, um crescente aumento do aquecimento global, surgimento de novos vírus, enfim, algo assustador acontecerá (ou já está acontecendo) e assim como a geração silenciosa vai desaparecer (1926-1946) os millenials vão envelhecer e surgirão novas gerações.

  A roda do tempo não para e está se movendo com as novas techs e quem não se aperceber disso sofrerá bastante.