Ivan Serguêievitch Turguêniev (1818-1883) é considerado um dos fundadores da corrente filosófica chamada niilismo que questiona ou rejeita verdades ou valores assentados e busca propósitos mais refinados para a existência humana. Ou seja, cultua o “nada”, porém, não “nada pelo nada” e sim algo mais profundo, um valor adicional a existência sem seguir o padrão que era (ou é) consensual. O movimento explodiu na Rússia com a publicação do livro “Pais e Filhos” (1862), de Turguêniev, adotado por uma juventude insubmissa.
É preciso, no entanto, entender a Rússia tzarista do século XIX, a vida do cidadão russo (o normal) cercada de autoritarismo, os camponeses vivendo ainda no tempo do medievo, país que respirava um momento de mudanças no comportamento da sociedade movido pelo desejo de ter ganhos na qualidade de vida e conseguir padrões no modelo europeu. Não somente no sentido material – melhor educação, saúde mais protetora, moradia, etc – mas também no campo das liberdades, do pensar livre e sem as censuras do regime.
São Petesburgo – em especial - traduzia esse clamor, esse clima, e era considerada a cidade russa mais europeia e também um farol com uma luz que iluminava caminhos de mudança com centros literários, publicação de revistas, teatros, debates e assim por diante. Outro centro importante era Moscou onde a família de Turguêniev foi residir depois que o governo hipotecou as terras de seu pai diante dividas.
O livro que vamos comentar de Ivan Turguêniev se intitula, “Diário de um Homem Supérfluo “ (EDITORA 34, 4ª edição reimpressão 2025, SP, tradução de Samuel Junqueira, imagem da capa Paul Cézanne, retrato de Gustavo Geffroy, 1896, 91 páginas, R$47,41 Amazon) se trata de uma novela em forma de diário retratando as angústias de um jovem à beira de morte e sua paixão infeliz por uma mulher, a filha de um proprietário de terras de sua província, e os desajustes da vide. Parece-nos uma crítica aos costumes da aristocracia o fulcro de sua narrativa ou o supérfluo que nela havia em luxo, vestes, gastronomia, em excessos inúteis, porém muito utilizados como glamour ou marca de superioridade (aparente) do ser.
Segundo Junqueira é a primeira vez que o termo “homem supérfluo” aparece na literatura russa caracterizado como uma espécie de “idealista inativo”. Ou seja, até tem capacidade intelectual elevada, mas é incapaz para a ação, “tanto devido ao sistema repressor sob o qual está submetido quanto a própria educação que recebe”.
O autor toma como gancho os acontecimentos de 1812 quando o tsar Alexandre I (1777-1825) para combater o exército francês, que ameaçava invadir a Rússia promove uma campanha patriótica para incentivar o recrutamento de soldados. Membros de todas as classes sociais foram convocados. Com a vitória russa diante da França e a ocupação de Paris os jovens militares russos têm contato com outra realidade social e refletem sobre o atraso russo. Daí que, em 1825, explodiu a Revolta Dezembrista, sufocada pelo tsar e suas tropas, mas, gerou um cenário social e político diferenciado no país, de maneira permanente.
É nesse ambiente que escritores têm papéis importantes como uma espécie de “fazedores de cabeças” ou o que hoje se chama de “influencer” para influenciar no rumo a mudanças na sociedade. E o homem supérfluo de Turguêniev vai se inserir nesse contesto não como um estranho ou um ser sem importância, mas como um pensador de ideais novas em desacordo coma realidade russa daquela época. Em síntese, sem uma apuração mais refinada de nossa parte, um contestador.
E o autor escreve um diário se posicionando à beira da morte, apenas 14 dias para chegar a finitude e decide contar a história de sua vida: “Nasci há trinta anos, numa família de proprietários rurais bem abastada. () Tive uma infância difícil e infeliz. Tanto meu pai como minha mãe amavam-me; mas isso não me trouxe consolo. () Após a morte de meu pais, transferimo-nos, definitivamente, para Moscou por uma razão muito simples: toda nossa propriedade fora levada a hasta por causa das dívidas”.
No prosseguimento da escrita o autor revela que encontrou a palavra para se classificar ou se autointitular: - Supérfluo...supérfluo...Encontrei uma palavra excelente “quanto mais profundamente me perscruto, quanto mais atentamente examino a minha vida pregressa, mais me convenço da estrita dimensão desse termo.
Turguêniev usa a ironia para cutucar o regime e a novela ao ser enviada para publicação nos “Anais da Pátria” revista periódica capítulos são censurados e mutilados uma vez que o regime não aceitava críticas à família aristocrata e o autor, já na inicial do livro, ao narra sua trajetória de vida revela que seu pai “era um jogador compulsivo” enquanto sua mãe “uma senhora de caráter”. Adiante, em trecho que foi censurado diz: “Sucumbiu (sua mãe) sob o peso de sua própria dignidade e tiranizava a todos, a começar por si mesma”.
Esse tipo de narrativa embora fosse real e escrita por um aristocrata era desabonadora à família aristocrata russa e a censura podava. Noutros dias, segundo anotações do tradutor, uma cidade obviamente com nome passou a ser grafada apenas com a letra maiúscula (O) e ao citar sua paixão, a bela. Elizavieta Kirillovna, diz ser filha de um homem comum (Ojóguin) e uma senhora que se assemelhava a “um frango envelhecido”. Vários outros comentários sobre a igreja ortodoxa, expressões que usou ao falar de um príncipe, até mesmo alusão ao seu capote foram impiedosamente censuradas.
O importante a destacar é que a obra na integra como autor a escreveu, sem a censura, sobreviveu aos regimes tsaristas, o movimento niilista ganhou força e novos adeptos na Rússia e a na Europa surgiram, e para alguns escritores russos a Europa era o símbolo da importância, do auge para um escritor, sobretudo a França.
O homem supérfluo descrito pelo autor em seu diário, era, no entanto algo diferenciado desde a infância um reflexo do autoritarismo de sua mãe “uma senhora extremamente despótica” - no dizer de Junqueira - exigindo obediência cega às suas ordens tanto dos cervos quanto dos filhos, e esse tipo de comportamento, embora, fosse comum a muitas famílias, não era um fato divulgável. E na medida que o homem supérfluo vem à tona (uma projeção da criança supérflua) as coisas vão se modificando no sentido de que a sociedade russa foi abrindo os olhos para determinados problemas e se modificando, tanto no âmbito da educação familiar quanto da formal, escolar, uma vez que uma coisa estava relacionada a outra.
Ler essa obra, portanto, exige dos leitores que conheçam a história russa dessa época (o que também vale para obras de outros autores e Machado de Assis, por exemplo, embora romancista, foi um dos escritores que deixaram um imenso legado sobre a história do Brasil (costumes) no século XIX a partir da capital do país) r Turguêniev com sua narrativa (livro com menos de 90 páginas) fala do amor, de uma enorme paixão não correspondida integralmente (esse é outro ponto da sutileza do autor, pois, a paixão é correspondida em parte pela bela personagem Bisa) e os leitores não tirando suas conclusões (que podem ser muitas ou nenhuma).
Aliás, o livro, no âmago da questão é isso: o nada no sentido de um novo caminho, uma nova busca, integral, em que o autor põe a morte no cenário batendo á sua porta. Ora zombando dela, ora a acolhendo, pois não existe vida sem morte e a lição que nos deixa é de que a aristocracia russa estava a caminho da morte, muitos haveriam de morrer, mas, alguns sobreviveriam com a transformação que passaria.
“Diário de um Homem Supérfluo” é um livro encantador. As sociedades se modificam, sempre, mas, ainda assim, ainda vemos muitos homens supérfluos por aí, sem importância, sem valor, mas, outros supérfluos aqueles que enxergam o nada como algo transformador.