Cultura

CMS PRECISA DEVOLVER À SSA PADROADO A STO ANTÔNIO, O MAIS QUERIDO (TF)

Louvores e respeito a São Francisco Xavier, mas o povo (a população) não sabe quem é ele
Tasso Franco , Salvador | 14/06/2026 às 11:45
Tenente-coronel Santo Antônio da Bahia, de Tasso Franco, ilustrações J Borges
Foto: BJÁ

Tendo comentado há anos que a Câmara de Vereadores de Salvador necessita votar um Projeto de Lei devolvendo a Santo Antônio o padroado da cidade. É um absurdo que o santo mais querido da população da capital baiana tenha sido substituído por São Francisco Xavier, santo que não é cultuada na cidade e conseguiu destronar o Lisboeta, por força de imposição da Companhia de Jesus (Jesuítas) e se mantem até os dias atuais.

Salvador é Santo Antônio desde os primórdios quando o português Cristóvão de Aguiar Daltro, em 1594, construiu uma capela de pau a pique (mais ou menos onde hoje se situa o Allê Varanda Bar localidade que se transformou num bairro Santo Antônio Além Carmo (isto é, depois do Convento do Carmo), na atualidade um local charmoso e um dos pontos turísticos mais efervescentes da capital.

Também na praça se situa a Paróquia de Santo Antônio (santuário e igreja matriz) que comanda todas as igrejas no entorno – Igreja e Convento do Carmo, Igreja da Ordem Terceira do Carmo, Igreja do Santíssimo Sacramento da Rua do Passo, Igreja dos 15 Mistérios e  Igreja do Boqueirão.

 Santo Antônio também é muito cultuado no bairro da Barra (onde desembarcou o fundador da cidade) com a Igreja de Santo Antônio da Barra do século XVII (o templo que tem a vista mais bonita da Baía de Todos os Santos) e o Forte de Santo da Bahia (século XVI) conhecido como Farol da Barra onde há uma capela belíssima e cultos religiosos. Esse forte é o monumento mais bonito e visitado de Salvador.

Será que isso é pouco para a CMS devolver o padroado a quem de direito?

Existe outro bairro na capital chamado originalmente de Santo Antônio da Mouraria (abreviado para Mouraria, uma cópia menor do bairro da Mouraria, em Lisboa, que é um dos mais tradicionais da capital portuguesa. Os mouros (árabes) dominaram Portugal por mais de 500 anos e na reconquista de Lisboa em 1147 com Dom Afonso Henriques, rei católico, a miscigenação árabe-lusa já tinha se enraizado e muitos antigos árabes e seus descendentes cultuavam Santo Antônio e quando muitos deles vieram para Salvador (chamados também de árabes ciganos) fundaram o bairro da Mouraria (de mouros, de árabes) e a igreja de Santo Antônio, muito bonita por sinal.

Se os vereadores quiserem mais argumentos eu dou com o pão de Santo Antônio na Igreja de São Francisco, no centro, o pão de Santo Antônio no Pelourinho e na Piedade, enfim, o santo dos pobres, das casamenteiras, o mais querido da cidade.

 E o que aconteceu com ele para ser destronado?

 Conta frei Antônio de Santa Maria Jaboatão que no ano de 1595 uma frota de 12 velas partiu do reino da França para se apossarem de Salvador. Na passagem por Arguim África “os hereges praticaram atos de violência e de suas igrejas e se apoderaram de uma imagem de Santo Antônio e levaram consigo numa das naus.

Nas proximidades do litoral Brasil houve uma tempestade e a nau que conduzia Santo Antônio foi parar nas costas de Sergipe. Todos os náufragos foram presos e enviados para Salvador, aos cuidados do governador dom Francisco de Souza e quando da viagem a pé – segundo Jabotão – a 12 léguas da sede da capital baiana encontraram a imagem de Santo Antônio que haviam roubado em Arguim.

Levaram a imagem para Francisco Dias D’Avila, primeiro senhor da Casa da Torre. Quando os capuchinhos souberam disso foram buscar a imagem e colocaram na Igreja de NS da Ajuda (igreja dos Mercadores) e no dia 23 de agosto de 1595 levada para o Convento de São Francisco. Isso foi feito em procissão por ordem do governador Rodrigo da Costa e “se deu tudo parte a El-Rey, Phelipe II (terceiro de Castela). O Brasil foi governador pelo reino da Espanha entre 1580-1640.

 Em Memória Históricas e Política, Inacio Accioly de Cerqueira (volume IV, pag 129) atesta que Santo Antônio foi nomeado primeiro padroeiro de Salvador e “tinha o soldo de praça de soldado intertenido, na fortaleza de Santo Antônio da Barra”. Santo Antônio foi promovido a capitão em 10 de junho de 1705 e o soldo era pago ao Convento de São Francisco. O santo atingiu a patente de tenente coronel no governo de Dom João VI, em 25 de novembro de 1814.

 Essa associação entre a igreja e o estado só acaba com a instalação da República por volta de 1911, mas a igreja continuou cobrando os soldos na justiça até 1923.

COMO SANTO ANTÔNIO PERDEU O PADROADO

Houve em Salvador 1685/1686 uma epidemia de febre amarela com muitas mortes. A cidade era imunda, o centro antigo repleto de ruas estreitas e casarões colados uns aos outros, a área do porto uma imundice, a praia da Preguiça o pinicão. As barricas de coco eram lançadas pelos escravos nesse local.

A Companhia de Jesus (Jesuitas) era a ordem religiosa mais importante da Bahia tanto do ponto de vista religioso, educacional (dona do colégio) e financeira. Os jesuítas então oraram pelo fim da epidemia sob a invocação de São Francisco Xavier e a peste teria cessada.

  Houve, então, um lóbi dos jesuítas junto a Câmara para que a instituição pedisse ao papa (via núncio apostólico) que o pontífice declarasse protetor da capital baiana. A consagração oficial ocorreu em 10 de maio de 1686, devido a suposto novo milagre atribuído ao santo durante outra epidemia em 1855 (cólera morbus), Salvador lembra o padroeiro em duas datas: 10 de maio: Data oficial em que foi declarado protetor da cidade; 3 de dezembro: Dia litúrgico de São Francisco Xavier.

  Xavier era espanhol de Navarra e colega de Inácio de Loyola (também espanhol) que estudavam em Paris quando fundaram a Companhia de Jesus, em 1534. Sua principal missão evangélica se deu na Ásia por isso é chamado “Apóstolo do Oriente”.

  Nem Loyola; nem Xavier vieram para o Brasil. Quando da fundação da cidade eles mandaram uma missa jesuítica comandada por padre Manoel da Nóbrega (português) e 6 irmãos (espanhóis e português).

  A Ordem foi a primeira a se instalar na cidade fundou o Colégio dos Jesuítas (o Colégio Antônio Vieira é o representante da ordem, hoje) evangelizou aldeias tupinambás e se tornou poderosa e dona de terras.

  O certo é que Santo Antônio perdeu o padroado mas não perdeu o trono. Ou seja, continua sendo o santo mais querido e cultuado da cidade e São Francisco Xavier um ilustre desconhecido. A imagem de Xavier fica abrigada na sacristia da Catedral Basílica da
Sé (jesuítica) e só tem a metade do corpo, do abdômen para cima. A imagem de Santo Inácio de Loyola está no frontispício desta catedral.

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*** Não sou um estudioso aprofundado de Santo Antônio. Conheço razoavelmente sua história, já escrevi o livro “Tenente Coronel Santo Antônio da Bahia”, com ilustrações de J. Borges, 2012, já estive na Basílica de Santo Antônio em Lisboa 4 vezes, comprei livros, visitei todos os pontos inclusive o quarto onde ele nasceu, entrevistei pessoas e comprei vários livros.

** Numa das viagens a Lisboa, em 2020, ao visitar o Museu da Santa Casa da Misericórdia, conheci, vi, uma imagem de São Francisco Xavier de corpo inteiro. E, não sei dizer porque a imagem de Salvador só tem a metade do corpo colocada num andor. É essa imagem que participa da procissão para o santo, em maio, que só vão alguns vereadores da CMS.

·         Mais um detalhe: se a CMS é a casa do povo e Santo Antônio é o santo do povo tá na hora de devolver o padroado ao santo de Lisboa e Pádua. (TF)